quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Antes que Seja Tarde

Cada passo dado durante dia
Ecoa, mais tarde, na noite fria.

Mostra-nos a palavra não dita.
Deixam algumas mentes aflitas
Com o que podia e não aconteceu.

E eu, prefiro mesmo é correr
Para, no fim do dia, não ter
Que, frustrado, dizer
Que não deu.
Só quero a chance de poder
desfrutar tudo o que é meu.

Tome aquilo que é seu
Antes de perder.

Quadrilha



João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Soneto à beleza

Vou falar de uma bênção da natureza,
Da dádiva que vem para roubar
O foco e a atenção do nosso olhar.
Quero falar da deslumbrante beleza.

É ela o prêmio da conquista;
O mais valioso tesouro da batalha;
É o gume separador da fria navalha;
A fonte de inspiração do artista.

É o polo magnético que indica a direção.
Está na realidade ilusória de imaginação.
A escuridão misteriosa, tranquila e assustadora.

Também é a violência do inocente.
Está nos olhos do que vê ou do que mente.
É a força da destruição, sutil e inovadora.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Memórias de um Solitário

Que paradoxo era ele.
E que defeito era aquele?!
Era algo de humilhar
Ele não saber abraçar.
Como podia ser amado?
Alguém ficaria ao seu lado?

Sempre acontecia,
Como testemunhei um dia,
De alguém dele se encantar.
Porém, ele sabia o que esperar.
Sentia bem perto o fracasso:
A hora do abraço.

O que havia de errado?
Tinha o corpo bem formado.
Nada nele faltava.
Nada nele excedia.
Era gentil, correto, exemplar.
E não sabia abraçar.

Por isso todos o evitavam.
Mas eles não o odiavam.
Possuia uma beleza singular,
Pureza e profundidade no olhar.
Só não sabia abraçar, infeliz.
Amar foi o que sempre quis.

Sua dor crescia ainda mais no peito.
"Como corrigir tal defeito?"
Ficava a se perguntar.
Com todo empenho tentou concertar
O erro, a destruição da sua vida
E deixar fluir a paixão reprimida.

Já um ano, gasto em vão,
Pôde admirar a solução:
"Mal chego a abraçar alguém direito
E já se nota o meu defeito!
Todos os outros, ao fazê-lo,
Vão pelo lado direito, não o esquerdo!"

Que burrice!!
Tudo resumido a esta tolice.
"Sempre abraçava do lado errado.
Estava tudo acabado.
Que animalzinho mais imbecil!"
E reenviou-se à Puta Que o Pariu.
15\06\2009

História de um Brâmane

Encontrei nas minhas viagens um velho brâmane, homem bastante sábio, cheio de espírito e erudição;. de resto, era rico, e por isso mesmo ainda mais sábio; pois, como nada lhe faltasse, não tinha necessidade de enganar a ninguém. Seu lar era muito bem governado por três belas mulheres que porfiavam em agradar-lhe; e, quando não se divertia com elas, ocupava-se em filosofar.
          Perto de sua casa, que era bonita, bem ornamentada e cercada de encantadores jardins, morava uma velha hindu carola, imbecil e muito pobre.
          — Quem me dera não ter nascido! – disse-me um dia o brâmane. Perguntei-lhe por quê. – Há quarenta anos que estudo – respondeu-me – e são quarenta anos perdidos: ensino aos outros, e ignoro tudo; esse estado me enche a alma de tal humilhação e desgosto, que me torna a vida insuportável. Nasci, vivo no tempo, e não sei o que é o tempo; acho-me num ponto entre duas eternidades, como dizem os nossos sábios, e não tenho a mínima idéia da eternidade. Sou composto de matéria, penso, e nunca pude saber por que coisa é produzido o pensamento; ignoro se o meu entendimento é em mim uma simples faculdade, como a de marchar, de digerir, e se penso com a minha cabeça como seguro com as minhas mãos. Não só o princípio de meu pensamento me é desconhecido, mas também o princípio de meus movimentos: não sei por que existo. No entanto, cada dia me fazem perguntas sobre todos esses pontos; é preciso responder; nada tenho que preste para lhes comunicar; falo bastante, e fico confuso e envergonhado de mim mesmo após haver falado.
          O pior é quando me perguntam se Brama foi produzido por Vixnu, ou se ambos são eternos. Deus é testemunha de que nada sei a respeito, o que bem se vê pelas minhas respostas. “Ah! meu reverendo – imploram-me, – dizei-me como é que o mal inunda toda a terra”. Sinto-me nas mesmas dificuldades que aqueles que me fazem tal pergunta: digo-lhes algumas vezes que tudo vai o melhor possível; mas aqueles que ficaram arruinados ou mutilados na guerra não acreditam nisso, nem eu tampouco: retiro-me acabrunhado da sua curiosidade e da minha ignorância. Vou consultar nossos antigos livros, e estes duplicam as minhas trevas. Vou consultar meus companheiros: respondem-me uns que o essencial é gozar a vida e zombar dos homens; outros julgam saber alguma coisa, e perdem-se em divagações; tudo concorre para aumentar o doloroso sentimento que me domina. Sinto-me às vezes à borda do desespero, quando penso que, após todas as minhas pesquisas, não sei nem de onde venho, nem o que sou, nem para onde vou, nem o que me tornarei”
          O estado desse excelente homem me causou verdadeira pena: ninguém tinha mais senso e boa-fé. Compreendi que, quanto mais luzes havia no seu entendimento a mais sensibilidade no seu coração, mais infeliz era ele.
          Vi, no mesmo dia, a velha sua vizinha: perguntei-lhe se alguma vez se afligira por saber como era a sua alma. Nem chegou a entender minha pergunta: nunca na sua vida refletira um momento sobre um só dos pontos que atormentavam o brâmane; acreditava de todo o coração nas metamorfoses de Vixnu e, desde que algumas vezes pudesse conseguir água do Ganges para se lavar, julgava-se a mais feliz das mulheres.
          Impressionado com a felicidade daquela pobre criatura, voltei a meu filósofo e disse-lhe:
          — Não te envergonhas de ser infeliz, quando mora à tua porta um velho autômato que não pensa em nada e vive contente?
          — Tens razão – respondeu-me ele; – mil vezes disse comigo que seria feliz se fosse tão tolo como a minha vizinha, e no entanto não desejaria tal felicidade.
          Essa resposta me causou maior impressão que tudo o mais; consultei minha consciência e vi que na verdade também não desejaria ser feliz sob a condição de ser imbecil.
          Expus a questão a filósofos, e eles foram da minha opinião. “No entanto – dizia eu, – há uma terrível contradição nessa maneira de pensar”. Pois de que se trata, afinal? De ser feliz. Que importa, pois, ter espírito ou ser tolo? Mais ainda: aqueles que estão contentes consigo estão bem certos de estar contentes; mas aqueles que raciocinam não se acham tão certos de bem raciocinar. “É claro – dizia eu – que se deveria preferir não ter senso-comum, uma vez que este contribua, o mínimo que seja, para o nosso mal-estar.” Todos foram de minha opinião, e todavia não encontrei ninguém que quisesse aceitar o pacto de se tornar imbecil para andar contente. Donde concluí que, se muito nos importamos com a felicidade, mais ainda nos importamos com a razão.
          Mas, refletindo bem, parece uma insensatez preferir a razão à felicidade. Como se explica, pois, tal contradição? Como todas as outras. Aí há muito de que falar.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Sobre a Crítica

Criticar.
Qual o verdadeiro sentido da crítica?
Entendo a crítica tanto quanto entendo...
Sei lá.


As vezes rendo-me a idéias alheias sobre o tema.
Wilde disse que toda a crítica
é uma forma de autobiografia.


Toda a crítica reflete
a insatisfação do próprio crítico.
Todos criticamos e julgamos
pois a ninguém coube ser perfeito.


A crítica, as vezes, vem disfarçada.


Alguns tem até o verdadeiro desejo
de ajudar o criticado.


Porém, é um tanto estranho,
a mim, ao menos,
criticar ou ouvir uma crítica.
Quem poderia conhecer alguém melhor
do que a si próprio.
Ter-se-ia que ser muito estúpido.


Sei que, para criticar,
temos que acreditar.
Mas, a crença, é uma faca de dois gumes.
Uma moeda com duas faces.
O bem e o mal disputam cada passo do crente.


A confusão da discórdia, a Éris grega,
nos torna criativos, todo artista é confuso.
Quem está confuso não critica,
ou, logicamente, não deveria.
O confuso tende a perder tempo
fazendo o que ainda não foi feito.


A crítica vale tanto quanto o crítico
e o crítico vale tanto quanto
aquilo que pensa.
Esta sim, talvez, seja uma certeza.
Por isso eu adoro as críticas.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Assim Falou Zaratustra

DAS TRÊS TRANSFORMAÇÕES

“Três transformações do espírito vos menciono: como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.

Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o espírito forte e sólido, respeitável. A força deste espírito está bradando por coisas pesadas, e das mais pesadas.

Há o que quer que seja pesado? — pergunta o espírito sólido. E ajoelha-se como camelo e quer que o carreguem bem. Que há mais pesado, heróis — pergunta o espírito sólido — a fim de eu o deitar sobre mim, para que a minha força se recreie?

Não será rebaixarmo-nos para o nosso orgulho padecer? Deixar brilhar a nossa loucura para zombarmos da nossa sensatez?

Ou será separarmo-nos da nossa causa quando ela celebra a sua vitória? Escalar altos montes para tentar o que nos tenta?

Ou será sustentarmo-nos com bolotas e erva do conhecimento e padecer fome na alma por causa da verdade?

Ou será estar enfermo e despedir a consoladores e travar amizade com surdos que nunca ouvem o que queremos?

Ou será submerjirmo-nos em água suja quando é a água da verdade, e não afastarmos de nós as frias rãs e os quentes sapos?

Ou será amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma quando nos quer assustar?

O espírito sólido sobrecarrega-se de todas estas coisas pesadíssimas; e à semelhança do camelo que corre carregado pelo deserto, assim ele corre pelo seu deserto.

No deserto mais solitário, porém, se efetua a segunda transformação: o espírito torna-se leão; quer conquistar a liberdade e ser senhor no seu próprio deserto.

Procura então o seu último senhor, quer ser seu inimigo e de seus dias; quer lutar pela vitória com o grande dragão.

Qual é o grande dragão a que o espírito já não quer chamar Deus, nem senhor?

“Tu deves”, assim se chama o grande dragão; mas o espírito do leão diz: “Eu quero”.

O “tu deves” está postado no seu caminho, como animal escamoso de áureo fulgor; e em cada uma das suas escamas brilha em douradas letras: “Tu deves!”

Valores milenários brilham nessas escamas, e o mais poderoso de todos os dragões fala assim:

“Em mim brilha o valor de todas as coisas”.

“Todos os valores foram já criados, e eu sou todos os valores criados. Para o futuro não deve existir o “eu quero!” Assim falou o dragão.

Meus irmãos, que falta faz o leão no espírito? Não bastará a besta de carga que abdica e venera?

Criar valores novos é coisa que o leão ainda não pode; mas criar uma liberdade para a nova criação, isso pode-o o poder do leão.

Para criar a liberdade e um santo NÃO, mesmo perante o dever; para isso, meus irmãos, é preciso o leão.

Conquistar o direito de criar novos valores é a mais terrível apropriação aos olhos de um espírito sólido e respeitoso. Para ele isto é uma verdadeira rapina e coisa própria de um animal rapace.

Como o mais santo, amou em seu tempo o “tu deves” e agora tem que ver a ilusão e arbitrariedade até no mais santo, a fim de conquistar a liberdade à custa do seu amor. É preciso um leão para esse feito.

Dizei-me, porém, irmãos: que poderá a criança fazer que não haja podido fazer o leão? Para que será preciso que o altivo leão se mude em criança?

A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação.

Sim; para o jogo da criação, meus irmãos, é preciso uma santa afirmação: o espírito quer agora a sua vontade, o que perdeu o mundo quer alcançar o seu mundo.

Três transformações do espírito vos mencionei: como o espírito se transformava em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança”.

Assim falava Zaratustra. E nesse tempo residia na cidade que se chama “Vaca Malhada”.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Fim da Adolescência

Sonhei que um dia estava a sonhar.
No meu sonho, dentro deste sonho,
Podia ver todo mundo sonhando
E todos os sonhos flutuando no ar.
Era a visão mais deslumbrante
Todos os sonhos flutuantes
E tudo e todos a voar.

Enquanto sonhava percebia,
Sempre, ao procurar outro sonho,
Que nehum igual ao meu existia.
Aí o sonho ficou medonho.
Entre todos os que ali sonhavam,
de todos os sonhos que voavam,
Só eu sonhava estar num sonho.

O meu coração palpitou aflito,
Atordoado, nem queria palitar.
Também, sonhozinho esquisito:
Sonhar com os outros a sonhar!

Por que ninguém alí podia
Estar sonhando que sonhava?
Vi que não podia explicar.

Era um terrível pesadelo.
Fiquei em completo desespero -
Ah, não passa de exagero!
Estava a sonhar.

E então, o sonho acabou.
belo susto minha mente pregou.
Mas, sonhos dos outros,
Nunca mais mostrou.

17/11/2007

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Budismo Moderno

Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

O Amor e o Prazer

O amor e o prazer são inimigos inseparáveis.
São a felicidade dos ricos, medianos e miseráveis.
Constroem ou derrubam os mais belos castelos.
Não enxergam bons ou maus, feios ou belos.

O amor é o alento, a ilusão inspiradora.
O prazer é o instinto, a vida, o agora.
O amor deve sempre ser bem distribuído.
O melhor prazer sempre é bem escondido.

Se o amor e o prazer separam-se,
Vida e alegria tornam-se
Dúvida e nostalgia.

Quando está apenas o amor,
O amante só sente a dor.

Se está apenas o prazer,
Quem o procura, quer esconder
a dor de ter vivido sem, necessariamente, viver.

A vida é sempre uma surpresa.
Quem busca amar é o caçador
E, ter prazer,
A presa.

Amor verdadeiro é privilégio dos libertos.
O prazer traiçoeiro é a culpa dos incertos.

Quem quer apenas amar
Não pode dar prazer.
Que quer apenas dar prazer
Nã pode amar.

Divino Dinheiro

Bendito seja o teu nome
Aqui e no mundo inteiro,
Oh, pai de todos os deuses,
Nosso onipotente Dinheiro!

Tú és a nossa razão de viver;
És a força, o nosso alimento;
Nos mostra o que devemos ser;
És a dor e a alegria, todo o sentimento.

És tú o unico que nos liberta.
És a nossa sabedoria aplicada,
Nossa desculpa, o nosso alerta
Na hora do tudo ou nada de cada.

Abençoa-nos com a tua segurança,
Expulse-nos o mal, traga-nos o bem,
Dai-nos abrigo, fé, amigos, confiança,
Dai-nos tudo e mais um extrazinho, Amém!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Silêncio



Fábula
"O cimo da montanha dormita;           .
vales, rochedos e grutas emudecem." 
Alcman.

 ESCUTA - disse o Demônio, pondo a mão sobre minha cabeça. -
A região de que falo é uma lúgubre região da Líbia, às margens
do rio Zaire e ali não há repouso nem silêncio.
"As águas do rio são amarelas e insalubres e não correm para o
mar, mas palpitam eternamente, sob o rubro olhar do sol, em
movimentos tumultuosos e convulsivos. Por muitas milhas, de cada
lado do leito lamacento do rio, estende-se um pálido deserto de
gigantescos nenúfares, que suspiram, um para o outro, naquela
solidão e erguem para o céu os longos colos lívidos, meneando as
frontes imortais. E dentre eles se evoca um murmúrio indistinto,
semelhante ao rolar de uma torrente subterrânea. E um para o outro
eles suspiram.
"Mas há um limite para seu reino, o limite da floresta escura,
horrenda, enorme. Ali, como as ondas em torno das Hébridas, os
arbustos rasteiros agitam-se sem cessar. No céu, porém, não sopra
vento algum. E as altas árvores primitivas oscilam, eternamente,
para lá e para cá, com um rumor poderoso e estalidante, E dos seus
altos cimos, caem, uma a uma, as gotas de um sempiterno orvalho. E as
seus pés, estranhas flores venenosas jazem, estorcendo-se em agitado
sono. E nas alturas, zunem fortemente as nuvens plúmbeas, que correm
continuamente para o oeste, até rolarem, em cataratas, por cima da
muralha ardente do horizonte, E às margens do rio Zaire não há
repouso nem silêncio.
"Era noite e a chuva caía; e ao cair, era chuva, mas, ao
chegar ao chão, era sangue. E de pé, no paul, entre os altos
nenúfares, eu estava, enquanto a chuva caía sobre mim. E os
nenúfares suspiravam um para o outro, na solenidade de sua
desolação.
E, de-repente, através do fino e lívido nevoeiro, surgiu a
lua, toda carmesim, E meu olhar caiu sobre um rochedo enorme e
escuro, que se erguia à margem do rio, iluminado pela luz da lua.
E o rochedo era enorme e de um cinzento pálido. Pálido e cinzenta.
Letras estavam gravadas na superfície da pedra; caminhei através do
paul de nenúfares até à margem, para poder ler as letras gravadas
na pedra. Mas não pude decifrá-las. E ia regressar ao paul, quando
a lua brilhou ainda mais vermelha. Voltei-me e olhei de novo para
o rochedo, para as letras, que formavam a palavra DESOLAÇÃO.
"Ergui a vista e descobri um homem, de pé, no cume do
rochedo; ocultei-me entre os nenúfares, a-fim-de poder ver os
movimentos do homem. Ele era alto, de porte imponente, e
envolvia-se, dos homem. Ele era alto, de porte imponente, e
envolvia-se, dos ombros aos pés, numa toga romana. Os traços de
seu rosto eram indistintos, mas suas feições eram as de uma
divindade; pois luziam mesmo através do manto da noite, da névoa,
da luz e do sereno. Erguia o cenho, pensativamente, e seu olhar
ardia de preocupação; e nas poucas rugas que lhes sulcavam as
faces, eu lia as legendas de tristeza, de fadiga e de desgosto
pela humanidade, e o amor ansioso da solidão.
"E o homem sentou-se sobre o rochedo, pousou a cabeça na
mão e contemplou meditativamente a soledade. Mergulhou a vista
nos arbustos rasteiros e inquietos e elevou-a às altas árvores
primitivas e, mais alto ainda, até ao céu rumorejante e à lua
avermelhada. E escondido em meio aos nenúfares, seguia eu os
movimentos do homem. E o homem tremia na solidão; mas a noite
avançava e ele permanecia sentado no rochedo.
"E o homem desviou depois sua atenção do céu e baixou a
vista sobre o lúgubre rio Zaire, sobre suas águas lívidas e
amarelas e sobre as legiões lúridas de nenúfares. E o homem
escutava os suspiros dos nenúfares e o murmúrio que deles se
evolava. E, bem oculto, espreitava eu as ações do homem. E o
homem tremia na solidão; mas a noite avançava e ele permanecia
sentado no rochedo.
"Depois desci para os recessos do paul, patinhando nas
brenhas de nenúfares e gritei pelos hipopótamos, que habitavam
nos lameiros mais fundos do pântano. E os hipopótamos ouviram
os meus gritos e vieram, com o behemoth (1), colocar-se no sopé
do rochedo, e à luz rugiram forte e pavorosamente. E, bem oculto,
espreitava eu as ações do homem. E o homem tremia na solidão;
mas a noite avançava e ele permanecia sentado no rochedo.
"Depois apostrofei os elementos, com maldições
tumultuosas; e uma terrível tempestade formou-se no céu, onde
antes não havia vento. E lívido se tornou o céu, com a
violência da tempestade. E a chuva golpeava a cabeça do homem;
e a água do rio corria escachoante, a espumejar de dor; e os
nenúfares gemiam nos leitos; e as florestas se despedaçavam ao
sopro do vento; e o trovão ribombava; e os raios caíam; e o
rochedo se abalava até a base. E, bem oculto, espreitavam eu
as ações do homem. E o homem tremia na solidão; mas a noite
avançava e ele permanecia sentado no rochedo.
"Encolerizei-me, então, e amaldiçoei, com a maldição
do silêncio, o rio, e os nenúfares, e o vento, e a floresta,
e o céu, e os trovão, e os gemidos dos nenúfares. E,
amaldiçoados, emudeceram. E a lua deixou de vaguear pela
estrada celeste. E o trovão morreu ao longe. O raio não mais
fulgurou. E as nuvens penderam imóveis. E as águas voltaram
ao seu nível e sossegaram. E as árvores cessaram de oscilar.
E os nenúfares não mais suspiraram. E não  mais se ouviu o
murmúrio que deles se evolava, ou qualquer sombra de som,
por toda a vastidão ilimitada do deserto. E ao contemplar
as letras gravadas no rochedo, vi que haviam mudado; lia-se
agora a palavra SILÊNCIO.
"E de novo volvi o olhar para o rosto do homem e seu
rosto estava lívido de terror. De-repente, ergueu a cabeça e
pôs-se de pé no rochedo à escuta. Mas nenhuma voz havia, por
toda a vastidão ilimitada do deserto. E as letras gravadas no
rochedo diziam silêncio. E o homem estremeceu, voltou o rosto
e pôs-se em fuga, precipitadamente; e nunca mais o tornei a ver."
  .....................................................
Ora, lindas história se encontram nos volumes dos Magos, nos
melancólicos volumes com fecho de ferro. Neles, afirmo, há
esplêndidas histórias do Céu e da Terra, e do mar poderoso; e
dos Gênios que governam o mar, e a terra, e os altos céus. Há
também muita ciência nas palavras proferidas pelas Sibilas; e
coisas sagradas se ouviam outrora, junto às folhas sombrias,
que tremiam em torno de Dodona; mas, considero, tão certo como
vive Alá, essa fábula que o Demônio me contou, sentado ao meu
lado, à sombra do túmulo, como a mais maravilhosa de todas! E
ao terminar o Demônio sua história, caiu dentro da cavidade do
sepulcro, às gargalhadas. E como eu não pudesse rir com o
Demônio, ele me amaldiçoou. E o lince, que vive eternamente no
sepulcro, saiu do seu fojo e deitou-se aos pés do Demônio,
encarando-o fixamente.

(1)  - Animal considerado como o hipopótamo do Nilo, e descrito no livro de Jó (XL 15-24) (Nota dos TT.)(Publicado pela primeira vez no BALTIMORE BOOK, em 1839)
    EDGAR A. POE

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Autopsicografia


    O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.

    E os que lêem o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    Não as duas que ele teve,
    Mas só a que eles não têm.

    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a razão,
    Esse comboio de corda
    Que se chama coração.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Facilidades

Vida Fácil.
Que vida é fácil?
Qual a graça de viver
Sem esforço nenhum a fazer?

De que serviria a força
Se não tivéssemos que livrar
Nosso pescoço da forca?
Vale a pena perguntar.

Viver facilmente
Não é viver
É ser demente, burro, inconsequente.
A dificuldade faz a vida valer.

Versos Íntimos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O encontro dos opostos

"Só temos consciência do Belo
quando conhecemos o feito.
Só temos consciência do bom,
Quando conhecemos o mau.
O grande e o pequeno são complementares.
O alto e o baixo formam um todo
O tom e o som se harmonizam.
O antes e o depois seguem-se um ao outro.
O passado e o futuro geram o tempo.
O longo e o curto se delimitam
O ser e o não ser geram-se mutuamente.
O sábio executa sua tarefa sem agir.
O sábio tudo realiza - e nada considera seu.
O sábio tudo faz e não se apega à sua obra."
...
Tao Te King