domingo, 27 de maio de 2012

Triste Final Feliz

A lua cheia emitia seu brilho.
No piso,
Estendia-se o reflexo negro
Quase a alcançar-lhe os pés,
Alí, na madrugada, às duas e dez.

As cortinas
Não podiam fecharem-se sozinhas
E faltava-lhe força para levantar-se,
Havia já certo tempo
Que desistira, inocente,
Dos poderes da mente.

O cenho sisudo
Parecia arrependido.

"Como aquilo havia acontecido?"

Aquela pergunta não a abandonava,
O medo ditava tudo o que pensava.

Num espelho manchado de sangue,
Aqueles olhos enfurecidos,
Adiante,
Pareciam totalmente estranhos.
Manchas também nos cabelos castanhos.

Durante anos amou o corpo estendido.
Seu coração, pertencia ao bandido
Que um dia roubara-lhe toda a paz.

O corte, fundo demais,
Quase partiu ao meio
O seu belo seio.

O pedaço
Do dedão esquerdo
Do seu belo pé,
Ainda preso,
Doia muito quando tocava o rodapé.

Aquelas tristes memórias
A açoitavam fortemente.
Os dias de tristezas e glórias...
Dois amantes febris, inocentes...

Só agora ela via
O terrível monstro
Que os assombrava.
A falta de alegria,
Destruidora de planos,
Ela mesma a provocara.

O pobre infeliz,
Agora imóvel,
No chão,
Como ela sempre quis,
Era óbvio,
Nunca mais diria "não".

Lembrava-se de como ele era imbecil.
Era calmo, atencioso, prestativo, infantil...
Apenas mais um corno em potencial.

Aquele sorriso impróprio e estúpido
Davam-lhe a imagem de um corrupto.

Pensava que não tinha um rival...

E novamente a dor insuportável
Fazia-lhe sentir-se inconfortável.

As estúpidas declarações de amor
Provocavam nela apenas pura aversão.
Ele era ótimo em lidar com a dor,
Mas não era mais que uma diversão.

Uma mosca sentou no osso exposto do seu dedão.

Tavez ela nunca tenha amado-o.
Sentia-se muito bem ao seu lado,
Mas, algo nele a incomodava.
A sua eterna felicidade
Era o que mais a irritava,
Isto sabia que era verdade.

Cada sorriso por ele emitido
Despertava nela um ódio desmedido.

Como ele era idiota.
Será que aprovou também,
Como comigo, com outro alguém,
O saboroso gosto da derrota?

E outras pequeninas Moscas
Sentavam nos ossos à mostra.

Pequenos pontinhos brilhantes
Tomavam todo o seu campo visual.
As poças sanguíneas coagulates
De ambos uniam-se pelo chão.
Ela estava muito mal.
Sentia dormência nos dedos da mão.

O instinto vivo de sobrevivência
Mostrou nele toda a sua essência
Nos seus últimos segundos de vida.
Depois de uma vida de pacifismo
Ele largou de mão todo o moralismo
E reagiu contra a sua investida.
Pena ser já tão tarde,
A lâmina já penetralha-lhe a carne.
Nos seus últimos segundos
Revidou, em talhes mais profundos.

Mas ela, muito esperta,
Sabia que, para ele, a morte era certa.
Escolheu cuidadosamente o local
Onde desferiria o seu golpe fatal.

Era para parecer acidental...
Rompeu-lhe apenas a artéria femural,
No meio do seu último beijo,
Queria-o morto, não com um aleijo.

O pior foi ele ter percebido.
Era para ela ter fugido
Enquanto parecia um acidente.

Mas ele foi-lhe um passo á frente.

Agarrou-a por um braço,
Num pequeno espaço de tempo,
Firme como um laço num touro,
Tomou-lhe a causa do ferimento
E tencionava arrancar-lhe o couro.

A mesa de mámore, até alí de pé,
Caiu-lhes sobre os pés
Decepando o dedão do pé da mulher.

Com a última investida
que o troxe algum efeito
Abriu nela aquela ferida
Que partiu-lhe o peito.

Ela apenas havia realizado
O mais antigo sonho do finado:
Deixar de existir.
Ele é que nunca teve a coragem
De realizar o seu desejo selvagem
De partir.
Ele era retardado, depressivo e,
Ainda sim, vivia a sorrir.

E as moscas já cobriam-lhes inteiros
Como trabalhadores matinais da Morte.
Ela também não teve tanta sorte,
seus ferimentos matá-la-iam, ligeiros.

E ela sentiu-se feliz
Como antes de conhecê-lo.
No amor, ele era apenas aprendiz.
Ela apaixonou-se por todo aquele zelo.

Sentiu algo ruim por dentro.
Ainda não era a morte,
Já havia sentido-a bem forte
Em algum outro momento.

Era a angústia do arrependimento.

As dores, antes insuportáveis,
Agora pareciam amáveis,
Como uma espécie de alento.

O sol ia-se já entrando pela janela.
Ela sequer havia percebido
Que o astro revelador havia nascido.
Duas pessoas já olhavam para ela.

Mas ela estava surda, catatônica,
Sequer podia ouvir gritos de fora,
Não sabia por que gritavam: -Mônica!
Não queria passar daquela hora.

Num surto de loucura,
Agarrou-se no dedo
Que ainda estava preso.

Aquilo não tinha cura.

Pôs-se furiosamente a puxá-lo
Até finalmente arrancá-lo
Do se seu corpo mutilado.

Ouviu uma forte pancada
Na porta trancada,
Logo ao seu lado.

Enquanto os seus vizinhos
Deitavam abaixo a sua porta
Ela, com a faca, prevenindo-se,
Garantiu que estaria bem morta.

Num rápido movimento previsto
Tomou a faca da mão do amado
E degolou-se, de lado a lado,
Como nunca ninguém havia visto.

...

Ao depararem-se com o caos
Do lado de dentro da casa,
Num tom todo original
Alguém gritou à todos na praça:

Olha o que o Rafael fez,
Matou a ambos de uma só vez!

E todos amaldiçoaram o pobre diabo,
Afinal,
Boato é a única coisa banal
Bem vendido, mesmo sendo fiado.

Humanos

Sempre inperfeito é o homem,
Há sempre defeito em nós.
Vivemos insatisfeitos e sós,
Praguejando e dizendo: amém.

Às vezes fazemos um bem mal,
Outras vezes, um mal bem.
Cada um vive como lhe convém:
É forte, bom, oportunista, banal...

Somos a praga da caixa,
De pandora ou do juízo final.
Forte estrutura viva e social,
Que hora quebra, ora encaixa.

Desvendamos como cada cor
Comporta-se nesta galáxia
E somos, na medida máxima,
Uma rosa coberta com cocô.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Este mundo
É um buraco profundo
Onde imbecis,
Meros fracos e infantis
Buscam encher
O vazio que é morrer
Tristes, perdidos
Em sonhos esquecidos.

O fim do mundo,
Este pensamento imundo,
Só é pregado
Por quem o tem piorado.
Nada está
Fora do seu devido lugar.
Amor,
É a única coisa de valor.

No escuro,
Dormia o ser inseguro
E Prometeu
O fogo sagrado nos deu.
E o ser humano
Tudo foi desvendando.
A razão sagrada
Nos revelou a estrada.

Temíamos bichos
E adorávamos os lixos,
Animais divinos,
Pregados aos meninos.
Aqui agora,
Nosso poder vigora.

Apenas controlamos
Aquilo que conhecemos.
E só não conhecemos
A nós mesmos.

É que ainda falta morrer
A última fé que se vê
No que não vemos.

Devemos
Acreditar em nós mesmos.

terça-feira, 24 de abril de 2012

A Bússola da Vida

Acredito em um Deus
Que fez-me como sou
Para fazer o que faço
Da maneira que sei.

Todos teem um Deus,
Várias faces ele tem
E convém usar todas
Para expor a sua lei.

Cada um segue a ordem
Que vem-lhe do berço
E do ventre materno,
A bússola da vida.

O bom Deus é o que o fez,
Enquanto o maldito,
Forte ladrão deprevado,
O amedronta.e trucida.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A Naturalidade Feminina

Antigos ancestrais reviram-se nos túmulos
Diante do maior entre todos os cúmulos:
A luta contra o que realmente se é.

Todos os mais belos dos caixinhos vídicos
Da vigorosa videira de frutos físicos
Viraram vassouras de limpar o pé.

Aqueles mais sedutores e frágeis caracóis
Deixaram as cabeças femininas a sós,
Despidas do escudo da naturalidade.

Cabelos lisos podem até ser muito legais,
Existem outras várias coisas anormais,
Pena que nem sempre são de verdade.

Faço o mais poético pedido à todas vocês:

Abandonem este preconceito de uma só vez,
A beleza não encontra-se apenas no salão.

Beleza, se alguém poder comigo concordar,
É apenas mais uma questão de pura opinião
Cada beleza distinta ocupa o devido lugar.

Seja bela, e não apenas mais uma qualquer.
Homem, realmente, admira inteira a mulher,
Não uma boneca, com os cabelos de madeira
E fedendo como um bode a venda numa feira.

terça-feira, 3 de abril de 2012

O Desespero de Lolita

Lolita caminhava
Sozinha e procurava
O lugar onde guardara
As coisas que mais amava.

Diante de um espelho
Parou e pensou:
Qual vestido ficará melhor,
O preto ou o vermelho?

Seu corpo, semi-nú,
Sem sutiã, calcinha azul,
Quase que hipnotizava.

O que ela precisava
Estava alí, diante dos olhos:
Era o seu corpo perfeito.

Suas formas,
Sob as mais exigentes normas
Da natureza masculina,
Obra que facina,
Eram cópias das da mais bela Vênus
Esculpida pelos velhos romanos.

Seus olhos, tênues,
Exibiam traços inumanos.
Lembravam traiçoeira serpente
Pronta para atacar, de repente.
Desejava, apenas,
Devolver o mal sentido.
Descansaria após ter retribuído.

Maus pensamentos, centenas,
Passavam em sua mente.
Sequer parecia uma criança inocente,
Tal qual era.
Era o monstro de alguma quimera.

Seu duro coração de pedra, inquebrável,
Chegou a bater, por tempo considerável,
Levando-a a pensar que estava a sentir.
Entretanto, seu modo de agir,
Durante todos os seus anos,
Mostrou o seu imenso egoísmo.

Ela nunca fez planos.

Como manda o modismo
Da sua insensível fase,
Queria, como diz a frase:
"Se dar bem!"
Porém,
Isso nunca aprendeu.

Esperava que tudo
Que merece neste mundo
Caisse do distante céu.

Não pensava em sua velhice,
Apenas na imundície
Que servia-lhe de exemplo.

Sentia, por dentro,
Que ela era comum,
Apenas vulgar.
Apenas mais um
Que não encontrou o lugar.

E, então, Lolita viu -
Ou melhor: sentiu -
Aquilo que precisava.

Descobriu que não amava.
Que ainda brincava com bonecas.
Era apenas mais uma destas
Inocentes crianças
Que brincam com armas.

E todos os seus carmas
Ficaram-lhe claros.

Percebeu, alí,
Que os mais caros
São os itens mais raros.

E só alí pode sentir:
Tornara-se apenas mais uma
Que desaparece após um banho de espuma.

domingo, 1 de abril de 2012

Notícia Extraordinária!!!!!!!

Nesta manhã de Domingo,
Dia 1º do mês de Abril,
Foi encontrado morto,
No leito de um rio,
O infame poeta
Ítalo Cunha.

As testemunhas afirmam,
Pescadores e curiosos,
que, segundo viram,
Em brados furiosos,
Ele apenas chegou
E então pulou.

A família do firme finado,
Lavados com lágrimas,
Comentou o triste fato,
Em palavras trágicas,
Em meio à suspiros
Ressentidos.

E, no entremeio, sorrindo,
Estava o próprio morto,
Deitado lá e curtindo,
Com todo seu gosto,
A fuga deste mundo
Triste e imundo.

O mais extraodinário,
Sem margem para comentário,
É que, pode acreditar,
Esta terrível estória,
Sem nenhuma glória,
Ele mesmo acabou de contar.

domingo, 25 de março de 2012

Os Fabricantes de Lampeões

Lá está, mais um fabricante de Lampião,
Com a sua ferramenta sempre à mão,
Aquela sua postura altiva e intimidante
Em perfeita concordância o semblante,
Violento e traiçoeiro.

Com a sua insaciável sede de justiça,
Intimida a sua matéria-prima omissa
Usando toda a violência hollywoodiana
Acumulada durante a sua infância insana,
O gatilho é ligeiro.

A estúpida hierarquia dos cães,
Com coleiras e donos sem mães,
Permite-lhes fazer o mal justificado.
Por dinheiro, isso não é pecado,
Devemos concordar.

As suas armas apontadas e prontas
Permite-lhes lidar com todas as afrontas
Pondo em jogo a vida de alguns inocentes,
Pobres medrosos e cidadãos decentes.
Eles teem que trabalhar.

E o Lampião vai nascendo e crescendo
Dentro daquele perante o cano, tremendo,
Pensando que, no momento descrito,
Viu-se desarmado, incapaz e frito.
Momentos assim, ninguém esquece.

E a lei... nem o fabricante obedece.











VIOLÊNCIA GERA VIOLÊNCIA,
NÃO PODEMOS PLANTAR CAPIM
E ESPERAR QUE NASÇAM ROSAS!





(Em homenagem à todos aqueles bons policiais
Que gritam, apontam armas e assustam cidadãos
Por sentirem-se a classe mais importante.
É isso que eles fazer na sociedade:









Ah, tá, e à Lampião também!

Um grande VIVA às lutas pela liberdade
E contra todo o abuso de autoridade!)

sexta-feira, 16 de março de 2012

Se Você Busca Um Sorriso, Não Leia!

Escrevo agora com o ódio
Que corrói a alma.
Aquele maldito e até óbvio
Sentimento que nos acalma.

O mundo é cruel e insano
Frio e matemático.
É estúpido quem está tentando
Ser sempre simpático.

Os bons sentimentos morrem,
Aqui, neste horrível lugar,
Enquanto imbecis comcorrem
À qualquer prêmio vulgar.

Os olhos cheios de esperança
Vindo em minha direção,
Lembram-me uma criança
Com um revólver na mão.

A inocência da inconsequência
Da curiosidade do filho
Pode levá-lo, sem prudência,
A apontá-la e puxar o gatilho.

O simples ato de baixarmos
A nossa cabeça
Pode até mesmo matar-nos,
Nunca esqueça.

Correto mesmo é sair por aí
Destruíndo e matando,
Como todo o esperto faz aqui.
Isso é comum, não insano.

Então vem-me a tristeza
De, infelizmente, saber,
Com toda a certeza,
Que,
Ainda melhor, pode crer,
Não é matar, mas morrer.

E fico esperando o dia correto
Em que minha alma penada
Largue este corpo incompleto,
Torne-se, finalmente, alada
E saia desta imunda estrada.

A Verdade

Nem feia, nem bela,
Dolorosa ou singela,
Ela é a verdade.

Sem rancor ou vaidade
Ou piedade do executor
Não traz dor, nem amor.

Não quer ódio ou alegria
Nem teme a noite ou o dia,
Acoita, corta, mata e cura.

A Verdade é uma figura!

Faz chorar e dar risada;
É o caminho e a cilada;
Dá a vida para matar;
Ordena o caos para criar.

A verdade é humana e irracional;
Fria, sadia, forte, imparcial
E, pode apostar, sempre pontual.

É o oposto da mentira
Que salva, condena,
Engana e envenena
E, quando descoberta,
Muito esperta,
Escolhe um lado e se retira.

Rotten World

If you realy want to know
What I have to say
I"ll realy try to tell you,
But, I"ll do it in my own way.

To live sucks the life to the bones,
Even before you die;
The world only choose the ones
That knows how to lie.

The poetry of life is rotting
And falling down in agony
While good ones are preing
For the fool's gods simpathy.

Thus, there's still some hope.
In the name of the goodness.
One or other go to the rope
For it, some more, some less.


And others, like me, instead,
Only wants this own place
To rest sided with the Death.
This is the only real grace.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Relógios

A localização temporal
É o passo inicial
Do macaco armado
Rumo ao homem lapidado.

O mundo possui estações
Que trazem e levam plantações,
Um sol, hora quente, hora frio,
E a lua, outro belo astro vadio.

Quanto mais precisamente
O passado e o presente
É por nós, homens, medido,
Mais nos vemos evoluídos.

Relógios biológicos complexos,
Diferentes em tamanhos e sexos,
Máquinas vivas com o poder
De questionar e entender...
Somos o topo da cadeia da evolução,
Dicotomia além da compreenção.

Somos Chronos, anos, dias, horas, segundos.
Somos inconsequentes e interdependentes.

Estamos no relógio da natureza do momento
Pendurados como enfeites na parede do tempo.

O magro ponteiro ligeiro dos segundos
Corre com precisão em direção ao começo
Para que o mediano marcando os minutos
Siga sua mesma estrada em lento passo
Na joranada de uma hora mais distante.

E ainda há quem sinta-se mais importante...

Sempre há o gordo baixo da hora,
O mais lento entre nós todos,
Que, com seu jeito, sem modos,
Pensa que só o seu brilho vigora.

... E os números em volta, a sorrir
E divertir-se com a corrida dos ponteiros
Que vão e voltam, precisos e certeiros
Pensando que só eles têm direito de existir.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O Demônio Sempre Vem Sorrindo

Chorar de tanto rir;
Sentir prazer na dor...
Tantos caminhos para seguir:
Compaixão, medo, ódio... amor.

Que paradoxo é a simplicidade.

De que serve o arrependimento?
O tempo não dá outra oportunidade.
O passado, para os estúpidos,
É um tormento.

Ser humano é ser social, normal...
Normais são loucos com a mesma mania.
O diferente chama mais a atenção,
Mas o comum, o supérfluo, é maioria.

O imitador é sempre um burro, incapaz.
O mais inteligente é sempre anormal.
O criador, se tudo fez e tudo faz,
É o pai do bem e a mãe do mal.

Nem sempre o óbvio é evidente.
Uns são miseráveis
E, ainda sim, felizes.
Os ricos são sempre infelizes,
Fúteis e prepotentes.
Onde há dinheiro, há crises.

Cadê o fim do infinito?
Quem pregou ele p'ra nós?
O Demônio vem sempre sorrindo,
E o Deus criador nos deixou sós.

Soneto Romântico

Nada há como seguir
A beleza do seu olhar.
Lembra o sol a acordar
Fazendo o mar reluzir.

Nada é tão desejável
Do que roubar a atenção
Dos olhos que vêm e vão,
De valor inestimável.

Também, pouco há, no mundo
Que compare-se ao seu sorriso -
Como é difícil de esquecer!

O romantismo é um mar profundo,
Estranho, incomparável, impreciso...
Teria eu o direito de afundar você?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Soneto Preeliminar

És a mais bela musa, senhora da minha mente.
Perto de ti, vejo-me como pequena criatura.
Dos teus pés, contemplo a colossal figura
Que, com ternura, repousa em minha frente.

Em seus joelhos, andando na linha, sigo anexo.
Deleito-me neste lugar a esperar a terra tremer
Em orgasmos provocados para a alegria nascer,
Na fronteira da cachoeira inativa do teu sexo.

Subindo as planícies abdominais até as montanhas
De cimos febris, infantis, coberto de manhas,
De ti, assim, arrancarei todos os gemidos.

E então, beijarei a tua escancarada boca
E a penetrarei e matarei toda aquela louca
Vontade que corrói e destrói os esquecidos.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Amando...

Como é bom ser capaz de amar...

O ar está sempre a faltar em nosso pulmões...
O coração, hora bate, hora não, como as canções...

A vida, sempre finita, só termina no momento
Em que abrimos mão dos nossos sentimentos.

Jamais o amor poderia ser ridículo.
Todo o bem crescido tem, ao menos,
Um alguém amado em seu currículo.
É aquele do qual nunca esquecemos.

O que é mais cômico
Do que alguém que pensa
Que consegue viver sozinho
Uma vida tão tensa?

Só sendo bastante imbecil.
A vida, já foi dito,
É como um rio que passa:
Sempre o mesmo rio,
Nunca as mesmas águas.

Porém, infelizmente, muitos não sabem.
Muitos são os corações sem porta,
Onde é banal todo aquele vai e vem.

São as pessoas de alma morta.

Estes corpos insensíveis,
Em diferentes níveis,
Estão sempre dispostos
A plantar desgostos.
Julgam todos como iguais -
Como são banais! -
E alimentam-se de almas lívidas
Cobrando amor, a pior das dívidas.

Mas, vendo-se amadas
Sentem-se enojadas,
Desperdiçando sentimentos,
Transformando-os em lamentos.
E os lamentos endurecem o coração
E plantam na pedra um jardim de ilusão.

Então, as rosas negras,
Com espinhos em lugar das pétalas,
Põem-se a exalar o fedor da derrota,
A alma a agonizar, estremece e arrota.
Em pouco tempo, estará quase morta.

Contudo, ainda há almas que curam-se
De todas as feridas e furam-se
A brincar de bem-me-quer,
Sem guardar sequer uma só cicatriz.

Estas sabem o que é realmente ser feliz,
Sabe guardar o momento vivido
E alegrar-se por ter sentido.

Ainda resta quem saiba o valor do amor,
Há quem ame sem importar-se com a dor.

Estes espíritos amantes
São raros como antes.
Guardam a alma para ver
O corpo enterrado perecer.

Preferem abrir mão da própria vida
P'ro o amor não ser uma palavra perdida.
Buscam nada além de alguém que mereça
Um lar no coração e um jardim na cabeça.

Todo o verdadeiro romântico é um suicida.
Queima o corpo, mantendo a alma aquecida.

A felicidade de amar é como o sol,
O romantismo é a bússola do girassol.
Na luz vivificante revela o dia
E aquece a alma outrora fria.

A tristeza da ilusão é como a lua.
Mostra a vida real, nua e crua:
Negra e salpicada de estrelas brilhantes,
Outros universos bastante distantes.

Assim como mudam as estacões nos anos,
O tempo molda a forma que amamos.

Ao tentarmos entender o amor,
Apenas perdemos a capacidade de sentí-lo.
O verdadeiro sentimento
Só se é sentido, nunca compreendido.
Há apenas uma certeza de que sei:
O amor não segue regras, nem sequer leis.

Tenho a esperaçanca de estar
Bem vivo quando o amor chegar.
E mesmo que não tenha forças,
Sei que ainda serei capaz de amar.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Carta à um ex-amor

Olá, meu amor,
Como tem passado?

O ferimento, sem dor,
Já está curado.
Nada do que vivemos
Foi apagado.
Não falta sequer o
Mais ínfimo pedaço.

Está a inocência
do primeiro sorriso;
Toda a alegria
Das primeiras frases:
As que trocamos,
Numa das suas fases,
Que me prenchiam
O vazio deste coração.

Está a paixão
Que brotou no jardim
De pura ilusão:
Um belo jasmim
De palavras em vão.
Pintado com as dores
De outros amores...

Saiba, onde fores,
Que isso não se perdeu,
Está cheio de cores:
É negro, como breu,
Incomum às flores,
Vermelhos de desejos,
Confianças verdes de ensejo...

O desejo de um beijo,
A primeira mentira...
É assim que eu te vejo.
Se é vidro ou safira?
É saber que não almejo.
Com tudo isso, fui além
E desejei te fazer bem.

Aquela visita também,
É uma ótima lembrança,
Não sinto nenhum desdém.
Admirei-a como a criança
Sem saber de onde aquilo vem.
Quis protegê-la no momento,
Quis dedicar-lhe o sentimento...

Envolvi-a como o vento
Que nos rodeia à todos.
Era um grande alento
Tê-la em meus braços bobos.
Deixou-me sedento
De possuí-la inteira,
De qualquer maneira.

A paixão, ligeira,
Dominou-me por completo:
Um espinho na cadeira,
No Travesseiro, um prego.
A esperança, faceira,
Dançava, inocente,
Dentro da minha mente.

Inconsequentemente,
Lutei para ter você.
Não sabia o que me vinha á frente...

Quis tanto te dar
Que nem percebi
Que você não queria.

Acreditei tanto
Em tudo que ouvi
Em sorriso ou em pranto...

Sonhei tê-la para mim,
Dediquei-lhe rimas,
Tentei não ser ruim
E unir nossas sinas.

Tentei tirar as dúvidas
Que a tiravam o sono.
Criei estórias lívidas
Para explicar-lhe o mundo.

Quando percebi,
Era tarde.
Eu já a amava.

Você pintava
O céu de cinza
E eu acreditava.

Seu namorado,
Nosso impecilho,
Sequer imaginava
O que o esperava...

Foi quando pensei
Que nem eu contei
Com aquela moeda.
Uma hora ia dar merda.

Mas o coração, contente,
Enxergou um presente,
Como se fosse uma erva
Que na merda se conserva.

O que era amor
Tornou-se uma mistura
De esperança e temor.

A paz trazida
Tornou-se loucura,
Poesia perdida.

Sua brincadeira tornou-se evidente.
Pensei se você era fútil ou inocente.

Mas meu coração, cheio de dores,
Me proibiu outros amores.

E, novamente, você voltou,
Viu a porta da frente e entrou.

Eu não podia mais negá-la asilo,
Com você, meu coração ficava tranquilo.

Libertou-me da minha loucura
E fez bem o papel da cura.

Aproveitando-se da porta aberta
Entrava e saia sem hora certa.

Sujou o tapete da varanda
E toda a parte por onde se anda.

Acho que você pensou,
Quando a porta se fechou
Que deveria ter pego a chave.

Mas, há algo que não contei,
Durante o tempo que esperei
Você levar-me em sua nave.

Decorei os seus passos.
Pus armadilhas no caminho.
Esta casa de fracassos
Não quer mais o seu carinho.

O presente que te dei
Vale pela minha vida,
Disso muito bem sei...
Foi a minha despedida.

Procurarei um lugar
Mais tranquilo e do bem
Em que não vá precisar
Dividí-lo com ninguém.

Suas palavras, hoje,
Não mais me encantam.
Seus olhos que fogem
Já provaram que não amam.

Espero que tudo dê
Muito certo para você,
Assim, não vou vê-la novamente.
Quero amor em minha frente.

Desejo-a ainda o que sempre quis:
Que você seja muito feliz!

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Desabamento em Sobradinho

O teto da cidade
Caiu, de verdade,
Sobre todos os moradores.

Por volta das dez,
Já sem ver mes pés,
Corria eu pelos arredores.
As pessoas passavam -
Ou corriam ou nadavam! -
Tentando, à toa, proteger-se.

A chuva vinha e lavava
A dura terra que dava
Tudo o que só nela cresce.
Relâmpagos azuis rompiam
A atmosfera e acendiam
todos os cantos desta esfera.
E a água descia
Com grande maestria
Entre o rugir destas feras.

Cena esta que demora
E que chega sem hora.
Na caatinga, só chove no fim.

Aqui, a sombra bronzeia,
A chuva rareia,
A fome recreia...

...Só não tem tempo ruim.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Vivendo

Perdi a minha vida sorrindo,
Lutando para ser bom caindo,
Não mantendo-me alí, de pé.

Perdi a coragem aprendendo
Que o sofrimento vencendo
Alegrava-me com medo e fé.

Sufocando o lúdico desejo
De possuir, agora vejo:
Não resta mais o que perder.

Toda a minha força se esvaiu
Quando a mente então sentiu
Que não tinha razão de ser.

Qual é a espécie de animal
A que o que vence é mal
E o perdedor vai para o céu?

Cada um de nós vê-se de pé
Daquele tamanho que se é.
Viver é foda, não lua-de-mel!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Erros da Vida

Ah, erros da vida!
A morte a chegar,
uma promessa esquecida,
Um erro de hora e lugar...

A bela amada perdida,
A morte a chegar,
O medo da partida,
Um erro de hora e lugar...

Machucar a ferida,
A morte a chegar,
Entrar na saída,
Um erro de hora e lugar...

O chorar da despedida,
A morte a chegar,
Um beco sem saída,
Um erro de hora e lugar...

Ah, erros da vida!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Panteísmo

Deus está em todos os lugares...

Na vida, na morte,
No azar, na sorte,
Nas igrejas, nos bares...

Na cicatriz, no corte,
No fraco, no forte,
No fundo do poço
E no alto do poste.

Segue-se que,
A não ser que ser
De estar seja diferente,

Eu estou com Deus;
Deus é meu;
Deus sou eu
E eu sou Deus.

Eu sou Deus!

Mas, Deus é tudo,
De você ao absurdo.

Então, eu sou você
E somos tudo.
(Deus incluso!)

Eu sou você
E somos deuses,
Logo:

Somos absurdos.

Tudo é nada e pertence a todos.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Mister You em Casa

Escrevendo e testando
Outras formas em verso,
Vou tecendo e rimando,
Hora ou outra, tropeço.

Busco, em rimas, ter
A ousadia de viver
Versando e ouvindo
Cada verso nascer.

E, assim, vou compondo,
Sem metas, com sono,
Esperando amanhecer.

...

A chuva, lá fora,
Parou de cair.
A nuvem que chora
Acabou de partir.

O vinho, no copo,
Compõe o cenário,
Em meio a versos
E um dicionário.

O cigarro aceso
Defumava,
O aroma,
Forte e torturador.

Faltava a erva
E um cobertor.

E ele pensando no amor...

O amor só vem
Quando lhe convém.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A Bela e a Rosa

Curvada,
A bela rosa contemplava
Os belos lábios a tocá-la.

Seu perfume
Roubava-a, despertando ciúme
Nos que veneram seu lume.

Doce mistério,
Estes pensamentos quiméricos
Percorrendo a mente atrás do brilho.

E eu, a contemplar
A beleza da rosa a murchar
Vendo a outra a desabrochar.

Seriam as rosas invejosas?
Outro mistério a sondar...

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

No Templo dos Sentimentos

Que belo dia para passear! -
Disse o Tédio para a Dor.

Vamos passear entre os humanos! -
Gritou de longe o Terror.

O Terror só vai para os fracos -
Disse o Tédio, meio cismado.

Os imbecis são uma ótima idéia! -
Disse a Dor, que não havia se mostrado.

Sempre a favor de tudo, esta mocréia -
Disse o Tédio, ainda cismado.

Ela e a esperança só andam com o derrotado -
Acrecenta ainda o Terror.

Será que poderemos convidar a Razão?
Ela prefere o solitário e o vencedor -
Novamente, o Tédio levanta a questão -
Poderíamos chamar o Amor também -
Continuou, mesmo sem perceber.

Ele sempre ignora a Razão, vai correr -
Disse a Dor, que o conhecia muito bem -
Sem falar que a Loucura é sua irmã de criação.

O Tédio olhou, como a perguntar: "Falta quem?"

Não falta alguém, podemos ir agora? -
Disse ele, após longo tempo.

A Razão, como sempre, demora -
Disse o Terror, exagerando um tanto -
Não vê que é quase aurora!

Aí vem, mas, quem será que está com ela? -
Perguntou o Tédio, como a toda hora.

É a Confiança, seu imbecil!

Que ingrediente falta nesta panela? -
E o perguntador quase chora.

Ficar perto da Dor é que é difícil!
O Terror sempre está na minha frente,
Mas a Dor é difícil de suportar -
Disse a Confiança, olhando de longe.

Se ela ficar, ninguém irá -
Ponderou a Razão -
Ela foi a primeira a ser convidada.

Então, vão o Amor e a Loucura também -
Disse a Dor, presente em toda discussão.

A Dor sempre piora as coisas. E o Desdém? -
Perguntou o Tédio, para variar.

Bem, a Dor sempre me convida,
Junto com o Tédio, para passear.
Mas a Esperança, ao ver-me, foge na certa -
Advertiu a Razão, com a Confiança a seu lado.

Aí, foi uma confusão completa.

Só podia ter sido idéia do Tédio, esse frustrado -
Exclamou a Dor, para desistirem da meta.

A Razão foi a primeira a despedir-se,
Com a Confiança sempre ao seu lado.
Sequer esperou a Esperança acalmar-lhes,
Mas, vendo o Amor e a Loucura, ficaram parados.
O Desdém vinha logo atrás, a seguir-lhes.

Há um lugar que quero que vocês conheçam -
Disse o Amor, ao chegar, em atitude indiscreta -
O lugar onde todas as nossas vidas começam,
A ilimitada mente de um poeta.

Está maluco? Eu é que não volto para lá -
Disse o Tédio, muito assustado -
Ele sempre tem papel e caneta para me expulsar.

E outro caos foi iniciado.

E, quanto a um filósofo, um pensador? -
Soou distante a voz da Razão.

E, foi logo gritando a Dor:
Nem ele, nem o inconsequente, definitivamente não!

O Terror, seu amigo, logo concordou:
É verdade, não dão a mínima atenção a nós!

Então, agora, o que restou? -
Pergunta o Tédio, que, só na paz, levanta a voz.

Poupem-me da maioria, os comuns são muito estúpidos -
Falou a Razão, muito desdenhosa.

Pessoal, para que conflitos? -
Interrompe o Amor, em voz manhosa...

Até que tanto durou a discussão,
Que realmente chegou a aurora,
E, vendo impossível tal excussão,
Cada qual tomou seu rumo e foi para fora.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O Valor de um Irmão

Muitas pessoas não sabem,
Muitos sabemos muito bem --
Motivo desta explicação --
Como é, deveras, ter um irmão.

Com certeza você vai odiar,
Como a tudo feito para incomodar,
Ter de dividir o amor e a atenção
E todo o mundo que conhecemos até então.

E aprendemos a dividir desta forma
Na delicadeza brutal da natureza que molda.

Logo cedo aprende-se o poder da barganha:
Quem a tudo sempre compartilha, nada ganha.

Também vemos até onde confiar em alguém:
É na pura realidade que irmão vivem.

Depois de eternos e estúpidos conflitos
Ambos tornam-se um, fixamente unidos.
E tudo isso vai, e tudo isso volta...
Ódio, amor, inconsequência, revolta...
Como o ciclo das estacões de um ano.
Atração e repulsa no mesmo caldo isano.

Daí vem o tempo e o contar dos dias,
Com suas inúmeras navalhas duras e frias,
Por distância entre o que antes era um,
E tornar raro tudo o que antes era comum.
A redoma de ódio e revolta então estoura.
Só a ausência tem vida saudável e duradoura.

Então, vem a saudade,
Com seu duro alicate,
Apertar nosso coração...
Uma vida, é o valor de um irmão.

sábado, 24 de dezembro de 2011

A Bela e a Janela

Deitada, ela abriu aquela janela,
Que mostrava este nosso mundo
Que já foi, mas que lá ainda era.

Sob as linhas, o olhar profundo
Vivia uma vida vivida lá, na mente,
Um novo pensar a cada segundo.

Surpreendentemente,
Alí, descobria,
Que sempre podia,
Toda hora ou dia,
Passear pela janela infinita,
Pela imensa janela da vida
E lá, nunca estaria só:

Estava totalmente rodeada
De várias outras vidas em pó.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Algumas Verdades

O viver é somente um ponto de vista.
Sentimento é um instinto socializado.
A derrota caminha ao lado da conquista.
A verdade: ilusão do todo, mundo sonhado.

Os bons ajudam para saciar um vício:
Serem bons, quando dá ou lembram.
Os maus controlam o desperdício
Fazendo o que seus deuses mandam.

Morrer é retornar para de onde se veio,
Voltar às entranhas da mãe natureza.
No fim de tudo, não há nada de feio.
A vida e a morte é uma única certeza.

Coisas que Devo Fazer

Perder o medo;
Dizer que a amo;
Ser bom com as pessoas...
Com uma mente que dela mesma caçoa?

Ter atenção, concentracão,
Praticidade, o corpo são,
Velocidade, manter o equilíbrio...
O que foi construído, deve ser destruído?

Estudar, dormir, acordar,
Sorrir, iludir-se, sonhar...
Nenhum tempo para pensar
E menos ainda para executar.

Controlar a mente...
Conhecer o corpo...
Isso soa distante.
Será que estou ficando louco?

Bem melhor é aproveitar o presente,
Desta forma eu nunca me distraio.
Se não tento ver além do horizonte
Vejo as pedras do caminho, assim, não caio.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Infinidade

Onde começa  um caminho infinito?
Onde demos o primeiro passo?
Quando começamos a viver?
Saberemos vivos ou quando morrer?

Antes do primeiro passo dado
Já estávamos a caminhar?
Tudo está em movimento ou parado?
Depois do úlimo passo, ainda vamos andar?

Quem foi o primeiro a questionar-se?
Qual foi a primeira questão?
Como a vida simplesmente nasce?
Existe criador, criatura, destruição?

Tantas perguntas sem respostas.
Tantas pessoas perguntando,
Outros dando as costas
A um questionador passando.
Será que a verdade está chegando?

O Belo e o Feio

Ah, o belo e o feio!
Fáceis de observar,
Difíceis de separar,
E há quem julgue sem receio...

O mais sublime perfume
E delicadeza de uma flor,
Alimentam-se do fedor
Nauseabundante do estrume...

Toda busca à sublime
Essência do puro amor
Vem da solidão, terror.
Não há paixão que não o ensine.

Qual será o criador,
É o bom ou o mal,
Se a doença letal
Ele mesmo criou?

Belo e feio, difíceis de separar.
Apenas os tolos podem julgar,
Não sabem o que é raciocinar.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Mais que Uma Palavra

Já amei a tudo outrora:
A vida, a noite, a aurora,
Algo sério, a sorrir...

Aí, fui crescendo,
Aos poucos ficando humano.
Quando criança, sabia sentir.

Sabia amar, mesmo o feio,
Minha vontade não tinha freio,
Nem eu temia a realidade.

Sucumbia a qualquer beleza,
Maravilhava-me a natureza,
Mal conhecia a vaidade.

Confiava em pessoas
E coisas que julgava boas.
Ainda lembro, sabia amar.

Sentimento era mais que palavra.
Minha amante não era escrava.
Então cresci, só resta lamentar.

Um Ser Que Ama Quimeras

Enquanto poetas amam,
Cuidam e idolatram
As suas belas musas,
Espertos tiram suas blusas.

Enquanto poesias,
Quentes, duras ou frias,
Prenchem o palpel,
O ser amado
Cai do céu,
Acompanhado.

Quando todo o carinho
Cai na terra sozinho,
Falsa semente de amor,
Faz brotar mais uma dor.

A única forma real
De um amor nascer
É plantar algum mal
E esperar para colher.

Amor verdadeiro,
Não um sonho ligeiro,
Nasce apenas do perdão
Do conquistado coração.

Assim, evoluímos:
Pouco a pouco, a cada dia,
Nos vamos reprimindo
Por amar uma musa fria.

Por que devemos maltratar
O ser que desejamos amar?

Sei-lá, são as regras do jogo,
Perder, novamente, é fogo!

O melhor é parar de jogar

Isso é um poeta, deveras,
Um ser que ama quimeras.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Soneto Para uma Prostituta

Estar em seus braços vivifica-me,
Realizo todas as minhas fantasias.
Viver, sem você, é estar em ruínas.
A tua presença é que me fortalece.

Conforto é tudo o que me trazes
Ao percorrer todo o meu corpo,
Num mundo infantil, muito louco,
A deriva nos seus próprios males.

Beijo-te suavemente, sentindo-a
Inflamar a minha mente alucinada.
Sucumbo completamente a este prazer.

Tens sido vítima de várias calúnias,
Homens que tratam-na como as outras.
Coitados, não podem ver, estão a perder.

Não Sei

O que seria ser bom?
Não fazer mal a outro?
Agir apenas como um louco?
Seria apenas um dom?

É previlégio de poucos?
Dos que só veem os seus?
Ou dos que ficam roucos,
Pregando a palavra de Deus?

Seria não amar a própria vida?
Fazer seu espírito perecer
Buscando um egoísta não ser?
Apenas esperar a hora da partida?

Matar a todos os seres humanos,
Libertar esta nobre natureza?
Se alguém aí tiver bons planos,
Acho a idéia uma beleza!

Sem dúvida, ser bom é ser nobre.
Então, juntarei bastente dinheiro -
Serei Deus, neste mundo inteiro,
E chamarei o Diabo de pobre!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Humanos Reflexivos

Somos apenas espelhos turvos:

Sempre refletimos,
Um tanto desfocados,
O olhar dos outros;

Os mais diferentes
São os que mais se veem;

Os mais parecidos
Parecem apenas um;

E apenas os mais despedaçados
Estão mais firmemente unidos,
Depois é impossível separá-los.

Espírito da Vida




Um dia, estava a imaginar sozinho:
"Por que o homem julga-se superior?"
Trilhei em palavras longo caminho
Para, enfim, estes versos compor.

Desde já peço desculpas a quem
Nenhuma beleza aqui encontrar,
Inspiro-me no bicho homem,
O que você poderia esperar?

Frágil e triste criatura nojenta,
Pensas que tudo cabe na mão.
O que a tua vida aqui representa
É pura capacidade de destruição.

Bizarra criatura estúpida e fraca,
Veja só o que propicia-te viver:
Para comer, tens de matar à faca
E isso, nunca arrepende-se ao fazer.

Para ter abrigo, não é diferente,
Novamente tens que destruir.
Até há quem o faça ciente,
Mas, é necessário construir.

Cavas fundo atrás de dinheiro
Para jogá-lo depois na natureza.
Jogas lixo e excrementos no rio,
Cobres de merda toda a beleza.

Todos, sem exeção, são culpados,
Não tenhas dúvidas nesta questão.
Desde os que são escravisados,
Por trás de mesas ou um balcão.
E os paralisados com medo.
E os espertos e picaretas.
Se existem imbecis no comando,
Culpado é quem baixa a cabeça.

Terror, poluição... destruição,
É apenas isso que buscas: a guerra!
Se apenas este é o poder da tua mão
Escolham o inferno ou o céu e vão,
Libertem a terra!

sábado, 26 de novembro de 2011

A Humanidade

Sejamos sinceros:
A humanidade,
Hoje,
É um mero
Aglomerado
De loucos.
Não são poucos
Os imbecis
Que, com leis infantis,
Tentam
Realizar aqueles sonhos
Que guiam
Os seus pesadelos medonhos
Quando estão acordados.
Ser humano é complicado!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sem Coleira

O cão sem dono
Saia na hora do sono
Tentando encontrar
O seu devido lugar
Em algum jardim.

Quase no fim
Pensou consigo:
Quero um amigo
Que seja verdadeiro,
Buscarei no mundo inteiro!

Traiçoeiros caminhos
Percorridos, sozinho
Ele os enfrentou.
Num deles, parou.
Olhou para trás.

Pensou: Não dá mais!
Tanto faz, como tanto fez,
Talvez não fosse a vez,
Não via onde parar.
O que vou alcançar?

I

Já quase a desitir,
A força a esvair,
Viu-se, então,
Numa coleira com brasão,
Que friamente dizia:

"Acabou a folia!"

Palavras estranhas.
Olhou as montanhas,
Não podia alcançá-las.
Agora, carregava malas.

"Cala-te agora,
Cão sem senhora,
Sou eu o seu patrão,
Guarde o meu coração,
É o mais puro e frágil!"

E o cão, muito ágil,
Partiu para a labuta.
Mulher ou puta,
Ela agora o domava.
E ele gostava.

Estava, novamente,
Feliz e sorridente.
Agora havia alguém
Que queria-lhe bem...
Foi o que pensou.

O destino chegou,
Ele pôs-se em guarda,
Levantou a cauda
E latiu bem, não latente,
Contra o perigo iminente.

Contente pelo trabalho -
Era bom quebra galho -,
Viu-se capaz de ajudar.
Mas, pôde julgar,
Não fora valorizado.

Sentiu-se cansado
E parou por curiosidade,
Pensando ter liberdade,
E logo sentiu um solavanco
Da prisão, seu colar branco.

No entanto, estava feliz,
Era o que ele sempre quis.
Já não era cão sem dono,
Protegia agora algum sono.
Mesmo perdendo o seu.

O medo na mente morreu.
Fazia tudo o que ela pedia,
Dia quente ou noite fria,
Realizava a sua função.
Até que então...

Não entendeu aquilo.
Estava feliz e tranquilo
Até apanhar sem culpa.
A dona tomou até multa
Pelos maltratos ao bicho.

II

Foi jogado no lixo,
Sem coleira ou corrente,
Só a liberdade pungente
Agora estava lá.
Era a hora de retornar.

Seu lar, abandonado,
Estava em tal estado
Que foi preciso abrir
Caminho para subir
Até a alta entrada.

Sem dono, um nada,
A barriga inchada
Da falta de alimento,
O cão, neste momento,
Pensou na outra vida.

Esquecidas as dores,
Viu novos jardins e flores
E, desta vez, ao menos,
Sentiu-se pleno.
Pensou não precisar amar.

III

Um dia, a caminhar,
Resolveu amar a tudo.
Perturbou seu lado mudo
Até poder ouví-lo,
Cansado de apenas sentí-lo.

Ao ver um mudo gritar
Pôs-se, então a pensar:
Tudo é possível,
Como é incrível,
Bastava apenas amar.

E parou de duvidar
Sobre sobre a sua dívida.
Não teve uma idéia lívida.
Ele devia amar o mundo,
Não um coração vagabundo.

No fundo, esta idéia,
Protegida como colméia,
Sempre estave lá,
Difícil era acreditar.

Agora, ainda sem dono
Ou sem velar algum sono,
Este cão vive feliz,
Com a liberdade que quis.
Ama as flores, folhas, madeira...

Só sente falta da coleira.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A Sonhada Paz

Estou perdido, não aguento mais lutar,
Deixarei a correnteza traiçoeira me levar.
O ar devagar me queima os pulmões;
O mal e o desejo de extinção são leões.

Numa vida pútrida de más vontades,
Dúvidas, erros, medo e meias vedades,
É realmente muito difícil de entender
O que anima as outras pessoas a viver.

Hoje, não quero ver a sonhada paz.
Hoje eu quero estar vivo, nada mais.
Agora não quero mais apenas amar,
Quero desfrutar o prazer de controlar.

Quero saciar o meu desejo possuir.
Quero sexo, drogas ou apenas sorrir.
Vou, agora, viver a vida sem freios,
Sem me importar com sonhos alheios.

Abro, aqui, mão do amor dos poetas
Que abandonam as suas frias metas
Para amar sem importar-se consigo.
Vou amar a quem quiser voar comigo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Corpo e Mente

O vazio da triste mente,
A abandonada mente,
Mente que pensa que pensa,
E só evapora e condensa,
Vai e vem com você
Dentro dela a dizer:
Agora está tudo bem
Eu sou sua também.

Mas o corpo, frustrado,
Que até então ficou calado,
Perguntou, com toda a arte:
E cadê a minha parte?!?!

E sem ter o que responder
(Já era!), não pude conter
Aquele estranho desejo
De ter mais que um beijo.
E o meu amor decidido
Tornou-me um bandido,
Ladrão de inocências.
Tempos de decadência.

Porém agora, realmente,
Não me sinto inocente,
Menos ainda culpado,
Apenas um tanto frustrado.
Que sentimento dura,
No perigo e sem cura?
Que tipo de amor resiste
Com a distância que existe
Entre aqueles que amam
Mas não se entregam?

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Pandora e Epimeteu

O dia amanhece e traz consigo a esperança.
A esperança nos torna novamente uma criança,
Apesar dos gregos, antigos sábios de outrora,
Terem colocado-a no fundo da caixa de Pandora.

Será que a esperança é o mal mais pesado
De todo aquele mal que havia lá guardado?
A beleza ilusória da esperança de fulano
Cedo ou tarde acabará ou estará acabando.

Mas, na hora, a esperança também consola,
Como bem percebeu minha amiga Pandora,
Presenteada por Hermes com mentira e traição,
E deu a esperança a Epimeteu, seu varão.

Adão e Eva dos antigos gregos místicos,
Sua união nunca contentou aqueles críticos,
Deuses e Titãns, como era o bom Prometeu.
A mesma velha estória: mais um que se perdeu.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Direções Opostas

Seus olhos trêmulos me diziam
tudo o que eu não queria ouvir.
Bem no fundo eles refletiam
Seu estranho desejo de partir.

A dura falsidade do seu abraço
Faziam sentir-me como um cactus.
O que houve com o belo laço
Que nos atou com desejos mágicos?

Simplesmente relaxou e caiu,
Despindo-nos daquela fantasia.
A porta daquele cinema se abriu,
Fez a luz levar toda a alegria.

Perdemos toda a nossa confiança.
O ser criador, este dito deus do amor,
Não tocou para a nossa bela dança,
Nos presenteou com o silêncio e a dor.

O último beijo foi-se naquela hora,
Num passado guardado em nós.
A ocupante deste coração foi embora,
Juntos, sentíamo-nos ainda mais a sós.

Mas, o rancor não é bom souvenir,
Deixemos este sentimento estragado.
Não temos culpa por querermos ir
Na direção oposta, e não lado a lado.

Cobrirei com um manto de desdém
O belo anjo que um dia amei.
Um dia sei que te esquecerei,
Com a ajuda da pura vergonha,
Mal de todo aquele que sonha
Tão alto que sempre acorda
A todos e a sí mesmo e cora.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Amor: A Criptonita Dos Poetas (Com Leila Maria)

O poeta voa aqui e acolá,
É o super-homem no ar,
Ele busca a beleza maldita,
O amor é a sua criptonita.
Tanto prazer, tanto carinho
E no fim acaba novamente sozinho,
Deslizando por rosas com espinhos,
Que o ferem e o faz sangrar.

De onde vem a beleza de amar?
Vem do vazio distante do não ser,
Da falta do que se pode querer,
De sí mesmo, do medo da solidão.
Esse alento não pode ser ilusão.
Vem da barreira que quando transposta se desfaz;
Dos embriagados amantes que sempre querem mais;
Da força e da coragem que eu tive de viver;
Das lágrimas que desaguam em dor no renascer.
E do mundo ilusório da mente solitária,
Da falta de uma ocupação primária
Que impede o corpo de abismar-se,
Dizendo para ele jogar-se.

Meu quarto mostra a desordem do meu eu.
Quero resgatar o que era meu!
Viajo ao passado tentando encontrar
Algo meia boca que ocupe o seu lugar.
Estar em qualquer quarto sem você
É pegar pena perpétua na prisão do querer.
O seu lugar é somente aqui do meu lado,
Todo o resto é apenas uma armadilha do passado.

O vazio que transponho
Reveste em flores o meu sonho
Tudo isso por um simples motivo,
Que um dia eu volte a me sentir vivo.
E que novamente me sinta forte,
Novamente saiba onde é o norte,
E não mais andar vagando por aí,
Sem destino, só a hora de partir.

O Romantismo

Como são ridículos, os românticos.
Nunca são capazes de conhecer a quem amam.
São como barcos a remo a trevessar o atlântico
Sem bússola, vela ou motor, só dores que o inflamam.

São pedaços humanos a vagar por entre seus entes
Sem nunca conhecê-los, nem mesmo sem querer.
Vivem apenas no vazio de suas próprias mentes,
Único lugar onde eles teem algum poder.

Tuberculosos, bêbados ou drogados, no século passado
Os românticos atuais são suas imitações baratas.
O romântico ama e nunca pode ser amado.
O romantismo é o anzol das mulheres ingratas.

Discípulos de Platão, negadores da realidade,
Caixões vazios enterrados no céu azul sangrento -
Isso é ser romântico - o resto é só vaidade.
O romantismo dita os versos que invento.

sábado, 22 de outubro de 2011

Novo Rumo

Quando o olhar distante,
Finalmente,
Traz a resposta
Da difícil pergunta apresentada
E nos mostra
A direção a seguir
É esta a verdadeira hora de partir...

...E traçar um novo rumo.


Não fique parado tentando ser bom
Corra, caia, levante e seja muito melhor.

Tome o seu caminho e corra,
Corra até cansar e cair
E descansar
E levantar
E sacudir
A poeira
E respirar fundo
E correr novamente
Até ter em sua frente
O que deseja,
onde quer que esteja!!!

A tristeza
É a mala mais pesada,
Dizem que sabe o povo.
Toma o teu sabre tolo
E toma o que é teu,
Com o poder 
Que o seu
Deus te deu.


- Tão simples assim?
 Sim!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Barganha Poética

Ah, belo astro de luz insuperável,
Toma-me com o teu calor vivificante,
Faz a minha vontade implacável
Brilhar como o seu semblante.

Magnífico astro imponente e sisudo,
Taga até mim teus raios epifânicos
Com o poder de revelar quase tudo,
Separe todos os maus e inflame-os.

Aqueça o ar que me enche os pulmões,
Conduza-me na direção certa de andar
E livre meu pobre barquinho dos furacões
Que aqui, acolá, insiste em nos açoitar.

Livra-me da cegueira involuntária,
Mal de todo sempre velho romântico!
Esta poesia não era para ser hilária!
Traz-me alguém em troca deste cântico!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Amores Reais (Versos Doloridos)

A verdadeira bondade
Somente priva da liberdade
Quem já não tem onde agarrar-se.

O amante perfeito,
Que ama de qualquer jeito,
Não enxerga defeito.
Leva sempre o amor preso no peito,
Não isolada ao seu lado.

Privar alguém da liberdade é o maior pecado.

As paixões que machucam os corações
Não passam de dolorosas ilusões.

O perdão...
Pode ser apenas fraqueza de opinião.

Encontrar no mundo um só sentimento verdadeiro,
Não apenas uma farsa ou mais um duro cativeiro
É como procurar um alfinete neste mundo inteiro.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Letras Verdes

Repentinamente acordei...
Sonhei com um belo anjo.
Diante dele me ajoelhei,
Guardei na mente seu arranjo.

Era a visão mais perfeita
O seu belo corpo parte nú.
Parecia que ela era feita
Numa quimera ao céu azul.

E disse estas palavras:
"Estou aqui para protegê-lo
Das suas paixões malvadas,
trazer-te um pouco de zelo.

"Sou a inocência que chora;
Sou um espírito de puro amor.
Estou aqui com você agora,
Vou ajudá-lo a livrar-se da dor."

E dizendo palavras tais
Tomou conta do meu coração.
Fê-lo bater em espaços iguais
De tempo, evitando explosão.

E então, eu chorei.
Chorei como nunca antes.
Por que chorava? Não sei...
Alegrias, coisas marcantes...

Banhado em lágrimas, soluçava.
E o meu anjo a me olhar.
Onde será que ela estava
Antes de vir me encontrar?

E então, ele perguntou:
"Agora você sente-se melhor?"
- Bem, a minha dor passou!
"Então, agora vem o pior."

Num piscar de olhos ligeiros
O meu anjo foi-se, embora
Meus agradecimentos lisonjeiros
Estivessem saindo na hora.

Mas, então, vi na parede,
Uma grande frase de fora a fora.
A perfeita caligrafia dizia em verde:
"A vida recomeça a toda hora!!"

O Corvo (The Raven) por Machado de Assis e Fernando Pessoa

Tradução de Machado de Assis:

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."

Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro co'a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais".

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o corvo disse: "Nunca mais!"

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais".

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais".

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o corvo disse: "Nunca mais".

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: "Nunca mais."

“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o corvo disse: "Nunca mais".

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!


 Tradução de Fernando Pessoa:

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
                 É só isto, e nada mais".

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais —
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
                 Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
                 É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
                 Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
                 Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
                 "É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
                 Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
                 Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
                 Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos — mortais
Todos — todos já se foram. Amanhã também te vais".
                 Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
                 Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
                 Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
                 Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
                 Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta — ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
                 Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta — ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
                 Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
                 Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
                 Libertar-se-á... nunca mais!

Lar Sem Muros

A tristeza é minha maior fonte de inspiração.
Palavras dançam quando me aperta o coração.
A felicidade, ilusão, nunca me incomoda à porta,
A esperar, não sei como o meu corpo suporta.

O meu lar sem muros nunca pôde ser pichado.
O vento é o dono de tudo o que tenho alugado.
Meu coração vazio bate e bate e bate entorpecido
Quando a ressaca não me deixa totalmente fudido.

Minhas veias doem, falta calor neste sangue sem cor.
O desejo de extinção segue-me para onde eu for
E meus únicos remédios são-me sempre negados.
Escrever é o que tenho para pagar meus pecados.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Misteriosas Paisagens

As misteriosas paisagens são as mais encantadoras.
A lua, nosso grande astro das noites mais promissoras,
Nem toda noite está lá, a emitir o seu brilho vulgar.
Um dia cheia, minguando até a nova lua que crescerá,
Que esconde eternamente um lado aos olhos do chão,
É a rainha do mórbido e do amante, do doente e do são.

Temos de andar vestidos na revelante e relevante luz,
A escuridão permite-nos a liberdade, ficarmos nus.
No escuro encontra abrigo a presa exitada e atenta.
No escuro Deus se revela e o Diabo, infeliz, atenta,
O precavido treme e infarta e o artista inventa.

sábado, 1 de outubro de 2011

Oração dos Internautas

Deus, por favor, ouça esta oração:
Livra-nos da queda em nossa conexão;
Do erros bobos em nossos downloads;
... Dos spans e das falhas nos modens.

Fazei a gata que estou teclando responder;
Impeça que ela encontre algo melhor para fazer.
Permita-nos um encontro perfeito em pessoa;
Permita também que ela seja muito boa (pessoa).

Livra-nos dos trojans, malwares e outros nomes;
Fazei com que o meu crack funcione;
Permita-nos usar a rede mundial para o bem;
Faça com que ela nos dê algum lucro também.
AMÉM!!!!

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Mais males mais uma vez


A mente humana é um grande salão
Onde o Deus e o Demônio se olham,
Sem ligar para nenhuma opinião,
Apertam suas mãos, e se abraçam.

No seu reino, nossa imesa natureza,
Eles disputam selvagemente migalhas,
Um resto de alguma destruída beleza,
Pois, toda disputa tem suas falhas.

Em toda guerra que se é realizada
Sempre perdemos parte do desejado.
Numa batalha eternamente travada
Acabam todos cansados e frustrados.