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domingo, 27 de maio de 2012

Triste Final Feliz

A lua cheia emitia seu brilho.
No piso,
Estendia-se o reflexo negro
Quase a alcançar-lhe os pés,
Alí, na madrugada, às duas e dez.

As cortinas
Não podiam fecharem-se sozinhas
E faltava-lhe força para levantar-se,
Havia já certo tempo
Que desistira, inocente,
Dos poderes da mente.

O cenho sisudo
Parecia arrependido.

"Como aquilo havia acontecido?"

Aquela pergunta não a abandonava,
O medo ditava tudo o que pensava.

Num espelho manchado de sangue,
Aqueles olhos enfurecidos,
Adiante,
Pareciam totalmente estranhos.
Manchas também nos cabelos castanhos.

Durante anos amou o corpo estendido.
Seu coração, pertencia ao bandido
Que um dia roubara-lhe toda a paz.

O corte, fundo demais,
Quase partiu ao meio
O seu belo seio.

O pedaço
Do dedão esquerdo
Do seu belo pé,
Ainda preso,
Doia muito quando tocava o rodapé.

Aquelas tristes memórias
A açoitavam fortemente.
Os dias de tristezas e glórias...
Dois amantes febris, inocentes...

Só agora ela via
O terrível monstro
Que os assombrava.
A falta de alegria,
Destruidora de planos,
Ela mesma a provocara.

O pobre infeliz,
Agora imóvel,
No chão,
Como ela sempre quis,
Era óbvio,
Nunca mais diria "não".

Lembrava-se de como ele era imbecil.
Era calmo, atencioso, prestativo, infantil...
Apenas mais um corno em potencial.

Aquele sorriso impróprio e estúpido
Davam-lhe a imagem de um corrupto.

Pensava que não tinha um rival...

E novamente a dor insuportável
Fazia-lhe sentir-se inconfortável.

As estúpidas declarações de amor
Provocavam nela apenas pura aversão.
Ele era ótimo em lidar com a dor,
Mas não era mais que uma diversão.

Uma mosca sentou no osso exposto do seu dedão.

Tavez ela nunca tenha amado-o.
Sentia-se muito bem ao seu lado,
Mas, algo nele a incomodava.
A sua eterna felicidade
Era o que mais a irritava,
Isto sabia que era verdade.

Cada sorriso por ele emitido
Despertava nela um ódio desmedido.

Como ele era idiota.
Será que aprovou também,
Como comigo, com outro alguém,
O saboroso gosto da derrota?

E outras pequeninas Moscas
Sentavam nos ossos à mostra.

Pequenos pontinhos brilhantes
Tomavam todo o seu campo visual.
As poças sanguíneas coagulates
De ambos uniam-se pelo chão.
Ela estava muito mal.
Sentia dormência nos dedos da mão.

O instinto vivo de sobrevivência
Mostrou nele toda a sua essência
Nos seus últimos segundos de vida.
Depois de uma vida de pacifismo
Ele largou de mão todo o moralismo
E reagiu contra a sua investida.
Pena ser já tão tarde,
A lâmina já penetralha-lhe a carne.
Nos seus últimos segundos
Revidou, em talhes mais profundos.

Mas ela, muito esperta,
Sabia que, para ele, a morte era certa.
Escolheu cuidadosamente o local
Onde desferiria o seu golpe fatal.

Era para parecer acidental...
Rompeu-lhe apenas a artéria femural,
No meio do seu último beijo,
Queria-o morto, não com um aleijo.

O pior foi ele ter percebido.
Era para ela ter fugido
Enquanto parecia um acidente.

Mas ele foi-lhe um passo á frente.

Agarrou-a por um braço,
Num pequeno espaço de tempo,
Firme como um laço num touro,
Tomou-lhe a causa do ferimento
E tencionava arrancar-lhe o couro.

A mesa de mámore, até alí de pé,
Caiu-lhes sobre os pés
Decepando o dedão do pé da mulher.

Com a última investida
que o troxe algum efeito
Abriu nela aquela ferida
Que partiu-lhe o peito.

Ela apenas havia realizado
O mais antigo sonho do finado:
Deixar de existir.
Ele é que nunca teve a coragem
De realizar o seu desejo selvagem
De partir.
Ele era retardado, depressivo e,
Ainda sim, vivia a sorrir.

E as moscas já cobriam-lhes inteiros
Como trabalhadores matinais da Morte.
Ela também não teve tanta sorte,
seus ferimentos matá-la-iam, ligeiros.

E ela sentiu-se feliz
Como antes de conhecê-lo.
No amor, ele era apenas aprendiz.
Ela apaixonou-se por todo aquele zelo.

Sentiu algo ruim por dentro.
Ainda não era a morte,
Já havia sentido-a bem forte
Em algum outro momento.

Era a angústia do arrependimento.

As dores, antes insuportáveis,
Agora pareciam amáveis,
Como uma espécie de alento.

O sol ia-se já entrando pela janela.
Ela sequer havia percebido
Que o astro revelador havia nascido.
Duas pessoas já olhavam para ela.

Mas ela estava surda, catatônica,
Sequer podia ouvir gritos de fora,
Não sabia por que gritavam: -Mônica!
Não queria passar daquela hora.

Num surto de loucura,
Agarrou-se no dedo
Que ainda estava preso.

Aquilo não tinha cura.

Pôs-se furiosamente a puxá-lo
Até finalmente arrancá-lo
Do se seu corpo mutilado.

Ouviu uma forte pancada
Na porta trancada,
Logo ao seu lado.

Enquanto os seus vizinhos
Deitavam abaixo a sua porta
Ela, com a faca, prevenindo-se,
Garantiu que estaria bem morta.

Num rápido movimento previsto
Tomou a faca da mão do amado
E degolou-se, de lado a lado,
Como nunca ninguém havia visto.

...

Ao depararem-se com o caos
Do lado de dentro da casa,
Num tom todo original
Alguém gritou à todos na praça:

Olha o que o Rafael fez,
Matou a ambos de uma só vez!

E todos amaldiçoaram o pobre diabo,
Afinal,
Boato é a única coisa banal
Bem vendido, mesmo sendo fiado.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Soneto Romântico

Nada há como seguir
A beleza do seu olhar.
Lembra o sol a acordar
Fazendo o mar reluzir.

Nada é tão desejável
Do que roubar a atenção
Dos olhos que vêm e vão,
De valor inestimável.

Também, pouco há, no mundo
Que compare-se ao seu sorriso -
Como é difícil de esquecer!

O romantismo é um mar profundo,
Estranho, incomparável, impreciso...
Teria eu o direito de afundar você?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Soneto Preeliminar

És a mais bela musa, senhora da minha mente.
Perto de ti, vejo-me como pequena criatura.
Dos teus pés, contemplo a colossal figura
Que, com ternura, repousa em minha frente.

Em seus joelhos, andando na linha, sigo anexo.
Deleito-me neste lugar a esperar a terra tremer
Em orgasmos provocados para a alegria nascer,
Na fronteira da cachoeira inativa do teu sexo.

Subindo as planícies abdominais até as montanhas
De cimos febris, infantis, coberto de manhas,
De ti, assim, arrancarei todos os gemidos.

E então, beijarei a tua escancarada boca
E a penetrarei e matarei toda aquela louca
Vontade que corrói e destrói os esquecidos.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Amando...

Como é bom ser capaz de amar...

O ar está sempre a faltar em nosso pulmões...
O coração, hora bate, hora não, como as canções...

A vida, sempre finita, só termina no momento
Em que abrimos mão dos nossos sentimentos.

Jamais o amor poderia ser ridículo.
Todo o bem crescido tem, ao menos,
Um alguém amado em seu currículo.
É aquele do qual nunca esquecemos.

O que é mais cômico
Do que alguém que pensa
Que consegue viver sozinho
Uma vida tão tensa?

Só sendo bastante imbecil.
A vida, já foi dito,
É como um rio que passa:
Sempre o mesmo rio,
Nunca as mesmas águas.

Porém, infelizmente, muitos não sabem.
Muitos são os corações sem porta,
Onde é banal todo aquele vai e vem.

São as pessoas de alma morta.

Estes corpos insensíveis,
Em diferentes níveis,
Estão sempre dispostos
A plantar desgostos.
Julgam todos como iguais -
Como são banais! -
E alimentam-se de almas lívidas
Cobrando amor, a pior das dívidas.

Mas, vendo-se amadas
Sentem-se enojadas,
Desperdiçando sentimentos,
Transformando-os em lamentos.
E os lamentos endurecem o coração
E plantam na pedra um jardim de ilusão.

Então, as rosas negras,
Com espinhos em lugar das pétalas,
Põem-se a exalar o fedor da derrota,
A alma a agonizar, estremece e arrota.
Em pouco tempo, estará quase morta.

Contudo, ainda há almas que curam-se
De todas as feridas e furam-se
A brincar de bem-me-quer,
Sem guardar sequer uma só cicatriz.

Estas sabem o que é realmente ser feliz,
Sabe guardar o momento vivido
E alegrar-se por ter sentido.

Ainda resta quem saiba o valor do amor,
Há quem ame sem importar-se com a dor.

Estes espíritos amantes
São raros como antes.
Guardam a alma para ver
O corpo enterrado perecer.

Preferem abrir mão da própria vida
P'ro o amor não ser uma palavra perdida.
Buscam nada além de alguém que mereça
Um lar no coração e um jardim na cabeça.

Todo o verdadeiro romântico é um suicida.
Queima o corpo, mantendo a alma aquecida.

A felicidade de amar é como o sol,
O romantismo é a bússola do girassol.
Na luz vivificante revela o dia
E aquece a alma outrora fria.

A tristeza da ilusão é como a lua.
Mostra a vida real, nua e crua:
Negra e salpicada de estrelas brilhantes,
Outros universos bastante distantes.

Assim como mudam as estacões nos anos,
O tempo molda a forma que amamos.

Ao tentarmos entender o amor,
Apenas perdemos a capacidade de sentí-lo.
O verdadeiro sentimento
Só se é sentido, nunca compreendido.
Há apenas uma certeza de que sei:
O amor não segue regras, nem sequer leis.

Tenho a esperaçanca de estar
Bem vivo quando o amor chegar.
E mesmo que não tenha forças,
Sei que ainda serei capaz de amar.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Carta à um ex-amor

Olá, meu amor,
Como tem passado?

O ferimento, sem dor,
Já está curado.
Nada do que vivemos
Foi apagado.
Não falta sequer o
Mais ínfimo pedaço.

Está a inocência
do primeiro sorriso;
Toda a alegria
Das primeiras frases:
As que trocamos,
Numa das suas fases,
Que me prenchiam
O vazio deste coração.

Está a paixão
Que brotou no jardim
De pura ilusão:
Um belo jasmim
De palavras em vão.
Pintado com as dores
De outros amores...

Saiba, onde fores,
Que isso não se perdeu,
Está cheio de cores:
É negro, como breu,
Incomum às flores,
Vermelhos de desejos,
Confianças verdes de ensejo...

O desejo de um beijo,
A primeira mentira...
É assim que eu te vejo.
Se é vidro ou safira?
É saber que não almejo.
Com tudo isso, fui além
E desejei te fazer bem.

Aquela visita também,
É uma ótima lembrança,
Não sinto nenhum desdém.
Admirei-a como a criança
Sem saber de onde aquilo vem.
Quis protegê-la no momento,
Quis dedicar-lhe o sentimento...

Envolvi-a como o vento
Que nos rodeia à todos.
Era um grande alento
Tê-la em meus braços bobos.
Deixou-me sedento
De possuí-la inteira,
De qualquer maneira.

A paixão, ligeira,
Dominou-me por completo:
Um espinho na cadeira,
No Travesseiro, um prego.
A esperança, faceira,
Dançava, inocente,
Dentro da minha mente.

Inconsequentemente,
Lutei para ter você.
Não sabia o que me vinha á frente...

Quis tanto te dar
Que nem percebi
Que você não queria.

Acreditei tanto
Em tudo que ouvi
Em sorriso ou em pranto...

Sonhei tê-la para mim,
Dediquei-lhe rimas,
Tentei não ser ruim
E unir nossas sinas.

Tentei tirar as dúvidas
Que a tiravam o sono.
Criei estórias lívidas
Para explicar-lhe o mundo.

Quando percebi,
Era tarde.
Eu já a amava.

Você pintava
O céu de cinza
E eu acreditava.

Seu namorado,
Nosso impecilho,
Sequer imaginava
O que o esperava...

Foi quando pensei
Que nem eu contei
Com aquela moeda.
Uma hora ia dar merda.

Mas o coração, contente,
Enxergou um presente,
Como se fosse uma erva
Que na merda se conserva.

O que era amor
Tornou-se uma mistura
De esperança e temor.

A paz trazida
Tornou-se loucura,
Poesia perdida.

Sua brincadeira tornou-se evidente.
Pensei se você era fútil ou inocente.

Mas meu coração, cheio de dores,
Me proibiu outros amores.

E, novamente, você voltou,
Viu a porta da frente e entrou.

Eu não podia mais negá-la asilo,
Com você, meu coração ficava tranquilo.

Libertou-me da minha loucura
E fez bem o papel da cura.

Aproveitando-se da porta aberta
Entrava e saia sem hora certa.

Sujou o tapete da varanda
E toda a parte por onde se anda.

Acho que você pensou,
Quando a porta se fechou
Que deveria ter pego a chave.

Mas, há algo que não contei,
Durante o tempo que esperei
Você levar-me em sua nave.

Decorei os seus passos.
Pus armadilhas no caminho.
Esta casa de fracassos
Não quer mais o seu carinho.

O presente que te dei
Vale pela minha vida,
Disso muito bem sei...
Foi a minha despedida.

Procurarei um lugar
Mais tranquilo e do bem
Em que não vá precisar
Dividí-lo com ninguém.

Suas palavras, hoje,
Não mais me encantam.
Seus olhos que fogem
Já provaram que não amam.

Espero que tudo dê
Muito certo para você,
Assim, não vou vê-la novamente.
Quero amor em minha frente.

Desejo-a ainda o que sempre quis:
Que você seja muito feliz!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Mais que Uma Palavra

Já amei a tudo outrora:
A vida, a noite, a aurora,
Algo sério, a sorrir...

Aí, fui crescendo,
Aos poucos ficando humano.
Quando criança, sabia sentir.

Sabia amar, mesmo o feio,
Minha vontade não tinha freio,
Nem eu temia a realidade.

Sucumbia a qualquer beleza,
Maravilhava-me a natureza,
Mal conhecia a vaidade.

Confiava em pessoas
E coisas que julgava boas.
Ainda lembro, sabia amar.

Sentimento era mais que palavra.
Minha amante não era escrava.
Então cresci, só resta lamentar.

Um Ser Que Ama Quimeras

Enquanto poetas amam,
Cuidam e idolatram
As suas belas musas,
Espertos tiram suas blusas.

Enquanto poesias,
Quentes, duras ou frias,
Prenchem o palpel,
O ser amado
Cai do céu,
Acompanhado.

Quando todo o carinho
Cai na terra sozinho,
Falsa semente de amor,
Faz brotar mais uma dor.

A única forma real
De um amor nascer
É plantar algum mal
E esperar para colher.

Amor verdadeiro,
Não um sonho ligeiro,
Nasce apenas do perdão
Do conquistado coração.

Assim, evoluímos:
Pouco a pouco, a cada dia,
Nos vamos reprimindo
Por amar uma musa fria.

Por que devemos maltratar
O ser que desejamos amar?

Sei-lá, são as regras do jogo,
Perder, novamente, é fogo!

O melhor é parar de jogar

Isso é um poeta, deveras,
Um ser que ama quimeras.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sem Coleira

O cão sem dono
Saia na hora do sono
Tentando encontrar
O seu devido lugar
Em algum jardim.

Quase no fim
Pensou consigo:
Quero um amigo
Que seja verdadeiro,
Buscarei no mundo inteiro!

Traiçoeiros caminhos
Percorridos, sozinho
Ele os enfrentou.
Num deles, parou.
Olhou para trás.

Pensou: Não dá mais!
Tanto faz, como tanto fez,
Talvez não fosse a vez,
Não via onde parar.
O que vou alcançar?

I

Já quase a desitir,
A força a esvair,
Viu-se, então,
Numa coleira com brasão,
Que friamente dizia:

"Acabou a folia!"

Palavras estranhas.
Olhou as montanhas,
Não podia alcançá-las.
Agora, carregava malas.

"Cala-te agora,
Cão sem senhora,
Sou eu o seu patrão,
Guarde o meu coração,
É o mais puro e frágil!"

E o cão, muito ágil,
Partiu para a labuta.
Mulher ou puta,
Ela agora o domava.
E ele gostava.

Estava, novamente,
Feliz e sorridente.
Agora havia alguém
Que queria-lhe bem...
Foi o que pensou.

O destino chegou,
Ele pôs-se em guarda,
Levantou a cauda
E latiu bem, não latente,
Contra o perigo iminente.

Contente pelo trabalho -
Era bom quebra galho -,
Viu-se capaz de ajudar.
Mas, pôde julgar,
Não fora valorizado.

Sentiu-se cansado
E parou por curiosidade,
Pensando ter liberdade,
E logo sentiu um solavanco
Da prisão, seu colar branco.

No entanto, estava feliz,
Era o que ele sempre quis.
Já não era cão sem dono,
Protegia agora algum sono.
Mesmo perdendo o seu.

O medo na mente morreu.
Fazia tudo o que ela pedia,
Dia quente ou noite fria,
Realizava a sua função.
Até que então...

Não entendeu aquilo.
Estava feliz e tranquilo
Até apanhar sem culpa.
A dona tomou até multa
Pelos maltratos ao bicho.

II

Foi jogado no lixo,
Sem coleira ou corrente,
Só a liberdade pungente
Agora estava lá.
Era a hora de retornar.

Seu lar, abandonado,
Estava em tal estado
Que foi preciso abrir
Caminho para subir
Até a alta entrada.

Sem dono, um nada,
A barriga inchada
Da falta de alimento,
O cão, neste momento,
Pensou na outra vida.

Esquecidas as dores,
Viu novos jardins e flores
E, desta vez, ao menos,
Sentiu-se pleno.
Pensou não precisar amar.

III

Um dia, a caminhar,
Resolveu amar a tudo.
Perturbou seu lado mudo
Até poder ouví-lo,
Cansado de apenas sentí-lo.

Ao ver um mudo gritar
Pôs-se, então a pensar:
Tudo é possível,
Como é incrível,
Bastava apenas amar.

E parou de duvidar
Sobre sobre a sua dívida.
Não teve uma idéia lívida.
Ele devia amar o mundo,
Não um coração vagabundo.

No fundo, esta idéia,
Protegida como colméia,
Sempre estave lá,
Difícil era acreditar.

Agora, ainda sem dono
Ou sem velar algum sono,
Este cão vive feliz,
Com a liberdade que quis.
Ama as flores, folhas, madeira...

Só sente falta da coleira.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A Sonhada Paz

Estou perdido, não aguento mais lutar,
Deixarei a correnteza traiçoeira me levar.
O ar devagar me queima os pulmões;
O mal e o desejo de extinção são leões.

Numa vida pútrida de más vontades,
Dúvidas, erros, medo e meias vedades,
É realmente muito difícil de entender
O que anima as outras pessoas a viver.

Hoje, não quero ver a sonhada paz.
Hoje eu quero estar vivo, nada mais.
Agora não quero mais apenas amar,
Quero desfrutar o prazer de controlar.

Quero saciar o meu desejo possuir.
Quero sexo, drogas ou apenas sorrir.
Vou, agora, viver a vida sem freios,
Sem me importar com sonhos alheios.

Abro, aqui, mão do amor dos poetas
Que abandonam as suas frias metas
Para amar sem importar-se consigo.
Vou amar a quem quiser voar comigo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Corpo e Mente

O vazio da triste mente,
A abandonada mente,
Mente que pensa que pensa,
E só evapora e condensa,
Vai e vem com você
Dentro dela a dizer:
Agora está tudo bem
Eu sou sua também.

Mas o corpo, frustrado,
Que até então ficou calado,
Perguntou, com toda a arte:
E cadê a minha parte?!?!

E sem ter o que responder
(Já era!), não pude conter
Aquele estranho desejo
De ter mais que um beijo.
E o meu amor decidido
Tornou-me um bandido,
Ladrão de inocências.
Tempos de decadência.

Porém agora, realmente,
Não me sinto inocente,
Menos ainda culpado,
Apenas um tanto frustrado.
Que sentimento dura,
No perigo e sem cura?
Que tipo de amor resiste
Com a distância que existe
Entre aqueles que amam
Mas não se entregam?

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Direções Opostas

Seus olhos trêmulos me diziam
tudo o que eu não queria ouvir.
Bem no fundo eles refletiam
Seu estranho desejo de partir.

A dura falsidade do seu abraço
Faziam sentir-me como um cactus.
O que houve com o belo laço
Que nos atou com desejos mágicos?

Simplesmente relaxou e caiu,
Despindo-nos daquela fantasia.
A porta daquele cinema se abriu,
Fez a luz levar toda a alegria.

Perdemos toda a nossa confiança.
O ser criador, este dito deus do amor,
Não tocou para a nossa bela dança,
Nos presenteou com o silêncio e a dor.

O último beijo foi-se naquela hora,
Num passado guardado em nós.
A ocupante deste coração foi embora,
Juntos, sentíamo-nos ainda mais a sós.

Mas, o rancor não é bom souvenir,
Deixemos este sentimento estragado.
Não temos culpa por querermos ir
Na direção oposta, e não lado a lado.

Cobrirei com um manto de desdém
O belo anjo que um dia amei.
Um dia sei que te esquecerei,
Com a ajuda da pura vergonha,
Mal de todo aquele que sonha
Tão alto que sempre acorda
A todos e a sí mesmo e cora.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Amor: A Criptonita Dos Poetas (Com Leila Maria)

O poeta voa aqui e acolá,
É o super-homem no ar,
Ele busca a beleza maldita,
O amor é a sua criptonita.
Tanto prazer, tanto carinho
E no fim acaba novamente sozinho,
Deslizando por rosas com espinhos,
Que o ferem e o faz sangrar.

De onde vem a beleza de amar?
Vem do vazio distante do não ser,
Da falta do que se pode querer,
De sí mesmo, do medo da solidão.
Esse alento não pode ser ilusão.
Vem da barreira que quando transposta se desfaz;
Dos embriagados amantes que sempre querem mais;
Da força e da coragem que eu tive de viver;
Das lágrimas que desaguam em dor no renascer.
E do mundo ilusório da mente solitária,
Da falta de uma ocupação primária
Que impede o corpo de abismar-se,
Dizendo para ele jogar-se.

Meu quarto mostra a desordem do meu eu.
Quero resgatar o que era meu!
Viajo ao passado tentando encontrar
Algo meia boca que ocupe o seu lugar.
Estar em qualquer quarto sem você
É pegar pena perpétua na prisão do querer.
O seu lugar é somente aqui do meu lado,
Todo o resto é apenas uma armadilha do passado.

O vazio que transponho
Reveste em flores o meu sonho
Tudo isso por um simples motivo,
Que um dia eu volte a me sentir vivo.
E que novamente me sinta forte,
Novamente saiba onde é o norte,
E não mais andar vagando por aí,
Sem destino, só a hora de partir.

O Romantismo

Como são ridículos, os românticos.
Nunca são capazes de conhecer a quem amam.
São como barcos a remo a trevessar o atlântico
Sem bússola, vela ou motor, só dores que o inflamam.

São pedaços humanos a vagar por entre seus entes
Sem nunca conhecê-los, nem mesmo sem querer.
Vivem apenas no vazio de suas próprias mentes,
Único lugar onde eles teem algum poder.

Tuberculosos, bêbados ou drogados, no século passado
Os românticos atuais são suas imitações baratas.
O romântico ama e nunca pode ser amado.
O romantismo é o anzol das mulheres ingratas.

Discípulos de Platão, negadores da realidade,
Caixões vazios enterrados no céu azul sangrento -
Isso é ser romântico - o resto é só vaidade.
O romantismo dita os versos que invento.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Barganha Poética

Ah, belo astro de luz insuperável,
Toma-me com o teu calor vivificante,
Faz a minha vontade implacável
Brilhar como o seu semblante.

Magnífico astro imponente e sisudo,
Taga até mim teus raios epifânicos
Com o poder de revelar quase tudo,
Separe todos os maus e inflame-os.

Aqueça o ar que me enche os pulmões,
Conduza-me na direção certa de andar
E livre meu pobre barquinho dos furacões
Que aqui, acolá, insiste em nos açoitar.

Livra-me da cegueira involuntária,
Mal de todo sempre velho romântico!
Esta poesia não era para ser hilária!
Traz-me alguém em troca deste cântico!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Amores Reais (Versos Doloridos)

A verdadeira bondade
Somente priva da liberdade
Quem já não tem onde agarrar-se.

O amante perfeito,
Que ama de qualquer jeito,
Não enxerga defeito.
Leva sempre o amor preso no peito,
Não isolada ao seu lado.

Privar alguém da liberdade é o maior pecado.

As paixões que machucam os corações
Não passam de dolorosas ilusões.

O perdão...
Pode ser apenas fraqueza de opinião.

Encontrar no mundo um só sentimento verdadeiro,
Não apenas uma farsa ou mais um duro cativeiro
É como procurar um alfinete neste mundo inteiro.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Letras Verdes

Repentinamente acordei...
Sonhei com um belo anjo.
Diante dele me ajoelhei,
Guardei na mente seu arranjo.

Era a visão mais perfeita
O seu belo corpo parte nú.
Parecia que ela era feita
Numa quimera ao céu azul.

E disse estas palavras:
"Estou aqui para protegê-lo
Das suas paixões malvadas,
trazer-te um pouco de zelo.

"Sou a inocência que chora;
Sou um espírito de puro amor.
Estou aqui com você agora,
Vou ajudá-lo a livrar-se da dor."

E dizendo palavras tais
Tomou conta do meu coração.
Fê-lo bater em espaços iguais
De tempo, evitando explosão.

E então, eu chorei.
Chorei como nunca antes.
Por que chorava? Não sei...
Alegrias, coisas marcantes...

Banhado em lágrimas, soluçava.
E o meu anjo a me olhar.
Onde será que ela estava
Antes de vir me encontrar?

E então, ele perguntou:
"Agora você sente-se melhor?"
- Bem, a minha dor passou!
"Então, agora vem o pior."

Num piscar de olhos ligeiros
O meu anjo foi-se, embora
Meus agradecimentos lisonjeiros
Estivessem saindo na hora.

Mas, então, vi na parede,
Uma grande frase de fora a fora.
A perfeita caligrafia dizia em verde:
"A vida recomeça a toda hora!!"

Lar Sem Muros

A tristeza é minha maior fonte de inspiração.
Palavras dançam quando me aperta o coração.
A felicidade, ilusão, nunca me incomoda à porta,
A esperar, não sei como o meu corpo suporta.

O meu lar sem muros nunca pôde ser pichado.
O vento é o dono de tudo o que tenho alugado.
Meu coração vazio bate e bate e bate entorpecido
Quando a ressaca não me deixa totalmente fudido.

Minhas veias doem, falta calor neste sangue sem cor.
O desejo de extinção segue-me para onde eu for
E meus únicos remédios são-me sempre negados.
Escrever é o que tenho para pagar meus pecados.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Misteriosas Paisagens

As misteriosas paisagens são as mais encantadoras.
A lua, nosso grande astro das noites mais promissoras,
Nem toda noite está lá, a emitir o seu brilho vulgar.
Um dia cheia, minguando até a nova lua que crescerá,
Que esconde eternamente um lado aos olhos do chão,
É a rainha do mórbido e do amante, do doente e do são.

Temos de andar vestidos na revelante e relevante luz,
A escuridão permite-nos a liberdade, ficarmos nus.
No escuro encontra abrigo a presa exitada e atenta.
No escuro Deus se revela e o Diabo, infeliz, atenta,
O precavido treme e infarta e o artista inventa.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Sobre a Vida

"Tudo aquilo que se fala mais,
É sempre o que menos se faz!"
Disse uma vez certo amigo,
Descrente da vida a falar comigo.

"Quando buscamos muito amor,
Não amamos, provocamos dor."
Dizia ele com toda a sua convicção.
Acho que ele sentia falta de um perdão.

Porém, não penso que ele estivesse errado.
É claro, seria melhor se ele não tivesse falado.
Tem-se nisso uma certa razão inesplicável.
Mas nem todo mudo no mundo é um ser amável.

Preocupa-me que as pessoas pensem assim.
Muitos somos enganados a todos os dias, sim,
Mas muitos, também, oferecem a outra face.
Melhor seria se o amor não existisse ou acabasse.

Nada neste mundo é recíproco, tudo é barganha.
Nunca se retorna exatamente o quanto se ganha.
Mas estamos deixando de amar, de verdade.
Trocamos o amor ao próximo pela própria vaidade.

Tememos o que nos traz algum forte sentimento.
Arrepia-nos pensar no fim e no póstumo lamento.
De tanto pensar, estamos deixando de sentir.
Morremos asfixiados em casa com medo de sair.

Hoje  o indivíduo já não é mais do que uma formiga.
Pensar por si só é, para muitos, fonte de intriga.
Só pensando por nós mesmos somos capazes de amar.
O amor não é do que teme, e sim do que o suportar.

O amor verdadeiro não tem boa ou má vontade.
Amar é ter um compromisso com a verdade.
Só sendo verdadeiro podemos dar amor.
Apenas a mentira pode causar a dor.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sobre as Ondas

O coração é como um barco a navegar.
Precisa de um guia no amor, imenso mar;
Tem o dever de ir a diferentes lugares,
É a sua utilidade, mesmo em mãos vulgares;
Tem de apontar para o novo destino sonhado
E temer apenas ficar na terra, encalhado.

Não tema a dor do balançar das ondas, minha bela,
Pois só no fundo do mar estamos livres dela.

É mais bonito o mar do amor do que a terra do desdém.
Procure encher o seu barco com aquilo que lhe faz bem.